Insustentável incompletude:

Uma vida pela metade

 

       Medo. Uma emoção natural do ser humano provoca sentimentos tão contraditórios quanto inebriantes. Nas palavras de Drummond, o medo esteriliza os abraços e se transforma em nosso pai e companheiro – protetor às vezes, intransigente e autoritário quase sempre. Se é verdade que um temor atua como nosso aliado, sinalizando contra perigos efetivos à nossa integridade física ou moral, também é correto que o receio exacerbado leva-nos a desatinos e a letargias, derrotados que somos, no espírito, antes mesmo da chegada ao front da plenitude existencial. Afinal, o medo, este gigante da alma, revela sempre o desejo de evitar dissabores? No filme “A Vila”, do diretor M. Night Shyamalan, os habitantes receiam sobrenaturais criaturas que vagavam pelo fronteiriço bosque. Na verdade, pessoas travestidas para impedir a partida dos moradores e resguardar a inviolabilidade do vilarejo. E aqui, em nossa vida real, de pessoas de carne e sangue e tantas misérias e alegrias, como atua o medo?
       Por um lado, o medo desponta como um estado afetivo suscitado pela consciência do perigo. Motivados por ele, procuramos estabilidade no emprego, ruas mais iluminadas, casas mais seguras, com alarme, cerca elétrica, guarda de rua que apita e embala nosso sono, auxiliado pelo cão de guarda e seu uivo melancólico. Motivados por ele, evitamos armadilhas de investidores dissimulados, recusamos alimento de procedência duvidosa, deixamos de contratar aqueles que, diz o nosso instinto de sobrevivência, podem trazer risco à nossa rotina.Interessante notarmos que o medo apresenta-se altamente metamorfoseado para atingir o maior número de pessoas e de modos distintos. No Brasil e na Espanha, países de maioria cristã, as pessoas temem muito a morte – na verdade, suas implicações para os infiéis, com séculos de inferno arraigados à mente. Um medo global é o da perda da memória, não necessariamente associado a doenças da velhice – receio de esquecer origens, personalidade. Enfim, o brasileiro também revela temer atrapalhar a felicidade da família de alguma forma. Japoneses não mencionam a solidão na velhice, mas nós temos essa fobia bem presente – você já viu uma “clínica geriátrica”?
     Além disso, pessoas manifestam medos em situações específicas. É o tempo do medo. Dos bandidos, da recessão, das notas baixas nos vestibulares, das balas perdidas. Respiramos medo, exalamos pânico. Os ricos ficam aterrorizados com ideia de perder privilégios e benesses nem sempre meritórios. Os remediados temem não alcançar o orçamento doméstico, o que inclui parcelas de eletrodomésticos e educação formal para os filhos. Os pobres temem não ascender socialmente, ou perder benefícios assistencialistas. Os indigentes rezam pela sociedade do consumo e seus lixões a céu aberto, um oásis de abundância em suas vidas de privação – privados de saúde, de emprego, de dente na boca. Escolha o seu, há medo para todo mundo.
       Por outro lado, não é exagero afirmar que o medo representa um grande vilão nas nossas vidas. Muitos são os que se acovardam perante suas fobias e, apequenados, não vislumbram qualquer hipótese de solução para as vicissitudes diárias que tanto usurpam nossa capacidade de reação. O medo mina nossa energia. Tomados pela fadiga, perdemos a autoestima e tememos insucessos, frustrações e desencontros antes mesmo de sua chegada, quase antecipando nosso objeto de temor. Nesse sentido, o medo atua como um elemento parasitário, incutindo em nossas mentes – altamente sugestionáveis de muitos – a hipótese do fiasco e da desdita como sendo o único desfecho possível para todas as ações humanas.
       Inevitável. Sempre que falamos com alguém sobre planos que elaboramos, seja para um novo emprego, um investimento ou uma empreitada afetiva inusitada, ouvimos dos autointitulados precavidos e sábios, velhos do Restelo do cotidiano, em tom quase profético, o medo que nosso interlocutor demonstra, alertando – ou desejando? – que tudo pode fracassar. Para tanto, há uma série de clichês que nos reduzem a simulacros de pessoas humanas e sentintes, como dissera o poeta. Não vá com muita sede ao pote. Melhor um na mão que dois voando. Quem espera sempre alcança. Ditados que engrandecem o medo, agigantam-no, e, por isso, recusamos ofertas de trabalho, não viajamos com amigos, acostumamo-nos à banalidade da segurança falsa que a falta de iniciativa oferece.
     Enfim, viver implica, muitas vezes, confrontar nosso medo, questioná-lo, impedindo que um temor usurpe sonhos, esperanças, vidas. Em alguns casos, o medroso até dribla problemas e ameaças, entrincheirado que está nos subterrâneos da apatia. Em outros, muitos outros, a vida exige coragem e intrepidez. É preciso invadir as fronteiras, deixar a vila para trás. Isso não requer inconsequência ou irresponsabilidade. Pelo contrário, demanda sabedoria, empenho, reflexão. Todos sabemos a alegoria de Davi e Golias. Todos os dias há um gigante à espreita – o medo. E assim como impérios, monstros místicos e míticos, verdades universais caem também o medo tomba. Não vivamos, enfim, uma vida pela metade. E você, tem medo de quê? Até mais.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 28/07/2015

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A difícil arte de enxergar

 

       “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
 
     Há um conto de H. G. Wells chamado “Em Terra de Cegos”. Na obra, a cegueira coletiva resulta de uma peste, castigo aos desvios de conduta da população do vale, cega há 14 gerações. Um dia, início do conflito, chega um forasteiro dotado de visão, e a narrativa passa a enquadrar o esforço do estrangeiro para convencer os habitantes cegos de que a visão existe. O homem fracassa, e a população cega decide arrancar-lhe os olhos a fim de curar a ilusão do visionário. E nós? Quantas vezes já tentamos alertar alguém acerca de situações que o interlocutor parece não enxergar? Quantas vezes, consumidos pela incapacidade ou pelo escapismo, ignoramos a verdade para preservar uma situação, uma pessoa, nossa própria existência enevoada de farsas e devaneios?
     Drummond escancara a porta da verdade em um poema, e cada um precisa escolher a sua, optando pela versão mais adequada a seus caprichos, a suas ilusões, a suas miopias. Nesse sentido, também nós, analogamente aos cegos do vale peruano, encaramos situações políticas, afetivas, econômicas, ideológicas, enfim, que exigem uma tomada de posição, um juízo de valor, um veredito sem a possibilidade do recurso ou do contraditório. Às vezes por dificuldade de interpretação e ignorância, às vezes por alienação cultural, às vezes por desvio de caráter e por vontade distorcida, escolhemos a verdade mais conveniente a nossos desejos imediatos. No jogo de versões, nem sempre prevalece mais correta, a mais ética, a única verídica...
      Acertadamente, “Ensaio sobre a cegueira”, obra de Saramago, também ajuda a entender a realidade obscura de inúmeras sociedades. No contexto geral do romance, desde o momento em que o personagem tem o semáforo diante de si (e perde a visão) até a última página, quando a visão (e a esperança) dos cegos que veem (não vendo) vai sendo recuperada, chega a ser fácil e óbvia a transposição para a realidade brasileira (global até). Somos pais que ignoram a falta de caráter da prole, cônjuges que ignoram a traição, fiéis que ignoram as palavras melífluas e ardilosas de falsos profetas, eleitores que ignoram ideologias vazias de lideranças políticas duvidosas... Somos, enfim, contaminados (ora lentamente, ora de súbito) pela cegueira. A dúvida: temos esperança?
     Para findar meus 2800 caracteres (com espaço e ultrapassados), retomo Platão (a alegoria da Caverna) e Hans Christian Andersen ("A nova roupa do imperador"). O primeiro traz um questionamento acerca da completude de nossa visão: temos percepção real ou simbólica dos objetos e da verdade? Seria nossa visão de mundo clara ou opaca e resultante de uma projeção? Andersen, por sua vez, brinda o leitor com um lado cômico (e trágico): por medo ou por aceitação, enxergamos uma roupa inexistente tanto quanto certos colegas de escritório, de classe, de clã enxergam virtudes e defeitos fantasiosos em quem está nu. Todos temos um superior vaidoso, um parente crédulo, um conhecido que não (se) enxerga... Alertar o cego pode trazer consequências desastrosas ao visionário: condenado à cegueira no conto de Wells, martirizado na cultura judaico-cristã, obrigado a tomar cicuta na filosofia, levado à cadeia e à forca em diversos momentos da história. Cada população, em épocas e contextos diferentes, encontra um meio para cegar a voz dissonante. É triste. E você? Já abriu os olhos hoje?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 11/08/2015

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As pedras no caminho

 

       Não se esqueçam da jornada: no meio do caminho tinha pedra.
 
     Todos conhecem a expressão coloquial pedra no sapato: maneira fácil que a sabedoria popular encontrou para alusão a problemas, a percalços, às árduas tarefas rotineiras. A frase representa situação, pessoa, matemática, dilema financeiro... Também me encanta a sabedoria mística, sobretudo quando incorporada a provérbio: atire a primeira pedra quem não tiver pecado – telhado de vidro. E sempre existe a simbologia literária. Resta saber como lidamos com a pedra no cotidiano de nossas retinas fatigadas.
      Retomo Raul, na célebre Medo da chuva: quantas vezes, por alienação ou escapismo, prostramo-nos como pedras imóveis, deixando-nos ao lado de algo (ou alguém) mesmo sem saber o real sentido de tal permanência? Assumimos nossa covardia por meio de desculpas supostamente válidas: não tenho apoio ou forças para seguir em frente. Tenho de acatar minha sina. É tarde demais.
       A narrativa de Sísifo traz uma lição paradoxal de persistência ou de teimosia. No mito, Sísifo usa estratégias ardilosas e ilícitas para alcançar vantagens, sendo punido pelos deuses pela audácia: condenado a rolar uma pedra montanha acima sem jamais completar a tarefa. Quando se encontra perto do topo, a fadiga se faz sentir, e a pedra rola montanha abaixo. Ele tudo recomeça no dia seguinte. Ele não podia fugir a seu destino trágico, mas nós podemos. E queremos?
     Outras vezes, por obstinação ou por utopia, arrastamos pedras em nossas existências, mesmo sentindo o atrito do objeto incômodo no espírito, na alma, no pé? Obstinação de quem, motivado pelo ânimo e pela fé, não abandona uma tarefa, uma missão – a luta contra enfermidade, o desejo altruísta, o objetivo esportivo, político. Porém, utopia de quem, motivado pela ambição ou pela cegueira, não abandona desejos que já não fazem mais sentido, antes se revestem de peso morto carregado até o limite da exaustão.
     Recordo a épica camoniana: no meio do caminho, tinha uma pedra, o Gigante Adamastor. Um obstáculo monstruoso e trágico com o qual os lusitanos tiveram de lidar a fim de alcançar o novo mundo. O Cabo das Tormentas representa qualquer empecilho que nos impeça de chegar ao lado de lá de nossos desejos. Uma pedra cuja transposição exige de nós a audácia dos marinheiros. Sem coragem, sem apoio, sem preparo, a vida é naufrágio.
     Certa vez, um aluno já cansado de lutar contra os vestibulares conseguiu êxito em instituição particular. Acanhado e ridicularizado por outros empedernidos que tentaram diminuir seu mérito (Qualquer um passa lá... – mentirosos cínicos!), ele me perguntou: Devo ir, Wash? Eu contei a ele a narrativa de Sísifo, acrescentando que nem todos são atletas olímpicos ou recebem prêmio Nobel, nem todos alcançam a USP, mas só cabia a ele saber se deixava ou não um sonho (ou uma tormenta?) para trás. Teria sempre meu apoio.
     Naquela sala de aula, ele se lembrou de Bob Dylan, em tradução monstruosa e adaptada: sentia-se sem direção, uma pedra que rola, mas foi. Está formado, salva vidas. Quando me encontra, sorri afetuoso e diz: Abandonei uma pedra de utopia para edificar meus sonhos reais. Obrigado, professor. E isso me salva o dia. E você? Quais pedras arrastar? Quais ultrapassar? Só não as atire... Até mais.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 25/08/2015

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Lição importante

 

       Escrevo a coluna em pleno feriado de sete de setembro. Há 193 anos do brado retumbante às margens do Ipiranga (Independência ou morte!), o povo heroico ainda não acordou de fato: permanece deitado no berço nada esplêndido do comodismo e da alienação. Comemorar exatamente o quê? As palavras proféticas de Rui Barbosa no senado federal do Rio de Janeiro, cidade nada maravilhosa quando o foco sai da praia e adentra a natureza humana das chacinas, do narcotráfico, da corrupção por ali nas cercanias da Petrobras, mostram-se atuais e contundentes: de tanto ver triunfar a corrupção, o brasileiro desanima da honestidade.
    A semana da pátria representa, em tese, um momento de reflexão a respeito da independência. Diferentemente do 4 de julho americano (bandeiras e nacionalismo exaltado) e do Dia da Bastilha francês (parada cívica nos Campos Elíseos, com fogos ao redor da torre Eiffel, e tudo sem incidentes!), o sete de setembro está mais ligado a um feriado prolongado e à oportunidade de um dia a mais em contato com a família e com os amigos. Um dia de lazer e de incompreensão do significado real do termo “independência”. Afinal, desde sempre, nosso povo ainda (e sempre?) depende: dos lusitanos, dos franceses, dos ingleses, dos americanos, dos coronéis, das políticas assistencialistas.
     A despeito do ufanismo e da exaltação das belezas pátrias, prevalece o coro dos descontentes. Para os céticos, a saída para o Brasil mais se assemelha a uma saída do Brasil: aeroporto. Sonho dourado de quem parte em busca de um sonho, de glória, de estudo, de paz. Japão, Estados Unidos, Canadá, Europa em geral. Destino de atletas, de alunos, de empresários, de babás, de todos. O brasileiro é um cidadão com os olhos voltados para o além-mar: a felicidade está além do oceano. Longe do mensalão, do petrolão, longe do povo oprimido nas filas do SUS (Um susto), nas vilas comandadas ora pelos traficantes, ora pelas milícias. Longe da feia fumaça dos carros e das queimadas que sobe apagando as estrelas. Longe da força da grana que ergue (Brasília!), mas destrói coisas belas (a virtude).
       As palavras de Vieira no Sermão do Bom Ladrão, bem antes do famoso brado, revelam profundo e atual entendimento do jeitinho brasileiro no trato das questões públicas. Desde então que o apadrinhamento, o nepotismo, a cultura do cabide esgotam os recursos da pátria em benefício dos grupos detentores do poder. São pessoas (concursadas, eleitas ou escolhidas para a ocupação de cargos de confiança) que se valem do governo para enriquecer ilicitamente a partir de escândalos, de gestões fraudulentas.
        No Brasil, há uma desproporcionalidade das punições aplicadas aos pobres e aos ricos: o roubar pouco faz o pirata condenado ao sistema carcerário que não educa, e o roubar muito faz os alexandres. Infelizmente, a sanha dos alexandres engravatados em Brasília, nas prefeituras, nas repartições parece infinda. Muitos condenam a corrupção não pelo fato de ela existir, e sim pelo fato de não fazer parte dela. Deixa lá cantar Cazuza que em nenhum instante vai trair a pátria desimportante. Quase todos a traem quando cortam fila, colam na escola, subornam o guarda rodoviário, pedem um favor leonardístico aqui, encenam uma preguiça macunaímica acolá. Se há roubo, não importam os dígitos. E sim a valoração do ato.
        E você? Aceita pixuleco? Falsifica carteira de estudante? Ocupa cabide na Petrobras? Depende de quê?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 8/09/2015

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Entre a intolerância, a fuga e o refúgio

 

       A intolerância representa qualquer ação de ódio sistemático contra indivíduos específicos. Desse ódio à sua maneira de ser, a seu estilo de vida e às suas crenças e convicções, nasce a agressão: verbal, civil, física – xingamentos, castração jurídica, guerras. Da agressão, nascem o medo, a utopia, a fuga. Amedrontados, grupos fogem em diáspora, em êxodos, em estouros humanos que deparam, não raro, com mais ódio, mais cercas e mais muros. Falta-nos a leitura de Umberto Eco: o mundo tem sido percorrido por sopros de intolerância, esperança e desespero.
       Há um filme de D. W. Grifith chamado Intolerância: o diretor retrata a questão na Babilônia, na Judéia, em Paris e na América. Respectivamente, o telespectador assiste aos desdobramentos do ódio religioso, da hipocrisia e da reforma pseudomoralista. Um filme crucial para entendermos, por meio da arte, o drama dos refugiados no mundo atual. Fatores religiosos, políticos, culturais, étnicos e até de gênero explicam a questão.
       Historicamente, a intolerância nasce de crenças religiosas obtusas e afastadas do princípio cristão de amor ao próximo. José Saramago já condenava a mais criminosa e absurda ação humana: matar em nome de Deus. No livro A Rainha Margot, Alexandre Dumas retrata o massacre da noite de São Bartolomeu, uma versão de guerra santa, como se algo existisse de santo na carnificina oriunda da fé cega. Inquisição, Intifada, Reforma e Obscurantismo. Como bem observou Baruch Spinoza, a violência e a opressão não podem promover a fé. Triste saber que nem todos leram (ou entenderam) a Carta Acerca da Tolerância, de John Locke.
        À intolerância religiosa, somam-se a intolerância política, a cultural, a étnica e a sexual. Como quantificar as vítimas de censura ideológica às liberdades individuais? Como explicar as pichações ao Centro de Tradições Nordestinas em São Paulo: “Morte aos Nordestinos!” (cartaz empunhado por um estudante da USP)? Como entender que trotes acadêmicos ainda humilham negros em rituais assemelhados aos praticados pela Ku Klux Klan nas faculdades que darão diploma a nazistas velados? Como equacionar (racionalmente) que a genitália ainda define valoração social, e não o caráter, a competência, o mérito?
     A cidade de São José do Rio Preto recebe refugiados sírios. Nas redes sociais, os munícipes organizam campanhas, tecem redes de apoio e dedicam tempo e dinheiro a fim de minimizar o sofrimento dos refugiados. Tudo isso é belo, é louvável. Esperamos que seja o embrião de um novo tempo: um tempo de apoio aos sírios, aos pobres, aos nordestinos, aos negros, às mulheres, aos gays, às pessoas com deficiência, aos idosos, a todos os que, diariamente, fogem e se refugiam simplesmente porque outros grupos majoritários em direitos, em armas, em poder e em arrogância tomam os privilégios e as benesses para si, privando minorias do acesso aos direitos humanos inalienáveis. E você, já fugiu de algo, de alguém, de si mesmo?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 8/09/2015

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A semana do saco cheio

 

       O Brasil comemora, nos dias 12 e 15 de outubro, respectivamente, o dia das crianças e o dia do professor. Antecipo a temática em uma semana para contextualizar, em resumo, a situação dos infantes e dos mestres na pátria (des)educadora tupiniquim em que nos encontramos. Infelizmente, o país ainda se encontra atado a uma situação deplorável em relação aos direitos de docentes e de discentes. Com a má qualidade políticas públicas na educação, eles se encontram fragilizados e em grande risco: um se vê privado de ensinamentos necessários à sua real inserção social, e o outro se vê de modo caricatural em uma sociedade que desvaloriza o profissional da área. Ambos se acusam na rotina das salas de aula, onde o quadro mais negro é o da qualidade, o da civilidade e o da harmonia.
      Além das comemorações acima descritas, grande parte da educação pátria para entre os dias 11 e 18 de outubro para celebrar a semana do saco cheio. Ouso comentar o tema a partir de uma análise tripartite, na perspectiva das crianças (particularmente, dos meus alunos queridos que se aventuram pelos caminhos obscuros do vestibular), dos professores (particularmente, dos homens e mulheres que professam seus conhecimentos com dedicação e com excelência, estando sempre responsáveis pelos alunos cativados) e do povo brasileiro (particularmente, dos cidadãos já estafados com a rotina escabrosa da corrupção que dilapida os bens e o ânimo da pátria).
             A semana da criança deve muito ao marketing dos brinquedos Estrela, a idealizadora de uma campanha para alavancar as vendas em outubro. Com o espírito comercial em vista, inúmeras empresas passaram, a partir da década de 80, a oferecer pacotes turísticos para alunos (concluintes do ensino fundamental e do médio) com o objetivo de encerrar seus ciclos de aprendizagem com uma ocasião festiva e marcante nas areias de Porto Seguro, nos parques da Disney. Para quem não quer (ou não pode) viajar, a data propicia uma ocasião para colocar em dia as matérias cobradas nos exames vestibulares. E é assim, entre tatuagem de hena, beijo furtivo, balada escaldante ou sessão de aulas particulares que os alunos atravessam a semana do saco cheio. Cheio do quê?
        O dia do professor, uma data que remonta a Pedro I, tem a dura missão de enaltecer a figura do docente. Com o espírito comercial em mente, falemos de números: considerando a carga horária de 40 horas semanais de trabalho, o salário-base médio é de R$ 2.711,48 para licenciados no início da carreira. De Sócrates a Paulo Freire, de Aristóteles a Demerval Saviani, da tia do jardim I ao Phd do curso superior, todos nós temos a figura de um preceptor brilhante nas mentes nostálgicas de nossos estudos. Somos muitos alexandres, iguais em tudo e na vida, e sempre nos lembramos do mestre que nos ensinou com devoção. E é assim, entre aulas para preparar, provas para corrigir, viagens por fazer ou livros por ler que os mentores atravessam a semana do saco cheio. Cheio do quê?
        O povo brasileiro está cada dia mais parecido ao eu lírico da canção de Chico Buarque. Parece entoar o dia todo: “Deixe em paz meu coração/Que ele é um pote até aqui de mágoa/E qualquer desatenção, faça não/Pode ser a gota d'água”. Somos desatentos em relação ao papel da educação na formação de um país mais justo, mais desenvolvido, mais rico. Estamos aturdidos pela condição política nacional, mas felizes porque quarta tem futebol, fevereiro tem carnaval, feriado tem ponte, e o país bonito e tropical tudo tropicaliza e anestesia ao calor de um sol escaldante que atordoa a vontade de reação. E é assim, entre churrasco, novo imposto, escândalo de corrupção e infinda esperança que o povo brasileiro atravessa a semana do saco cheio. Cheio do quê?
      Todos estamos de saco cheio de ver triunfarem o criminoso, o boçal, o desvirtuado e o inepto. Estamos cansados de uma escola que não ensina, de uma população estudantil que não deseja, ou não consegue, ou não tem meios para aprender. Estamos fartos da falta de vagas no ensino superior e da desqualificação docente. Estamos exauridos pela insegurança pública, pela inépcia do SUS, pelo desamor na vida cotidiana. Estamos de pagar impostos de modo acumulativo sem receber a devida prestação de serviços públicos de qualidade mínima, compatíveis com a dignidade de um cidadão.
         Homens e livros. Eis a receita de um país nas sempre contundentes palavras de Monteiro Lobado. Contudo, no Brasil dos meninos mais velhos e mais novos de Fabiano, que podem, facilmente, desenvolver uma postura de capitão da areia, confirmando um determinismo criminoso e nefando, falta livro e falta homem disposto a desvendar a sabedoria nele existente. Dumbledore, Raimundo, Charles Xavier, John Keating, Ross Geller, Mestre Yoda, Girafales, Paulo Freire. Todos nos lembramos de um professor que não apenas ensina, mas também aprende. Em cada aula, lições essenciais nem sempre perceptíveis aos olhos, mas percebidas pelo coração. Nosso saco está cheio, mas nossa alienação está tamanha. Precisamos encarar o peso morto dentro do saco, livrando-nos dele. E você? Está cheio do quê??
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 6/10/2015

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Uma odisseia chamada ENEM

 

       O percurso de um homem rumo à heroicidade pode ser entendido a partir de um clássico da literatura escrito por Homero: A Odisseia (Para quem deseja uma versão cinematográfica, indico o filme A Odisseia, dirigido por Andrei Konchalovsky e produzido para a TV por Francis Ford Coppolla em 1997). A obra retrata uma viagem cheia de aventuras e de peripécias, marcada por uma série de acontecimentos anormais e variados. E não é exatamente esse o sentido do Enem na vida de incontáveis brasileiros que enfrentarão, dias 24 e 25 de outubro, o famigerado Exame Nacional do Ensino Médio?
         Por falta de espaço e confiante na referência acima (ver o filme e ler o livro), vamos concentrar a analogia no ponto crucial da questão: Ulisses enfrenta obstáculos inimagináveis, mas persevera e volta a sua terra natal para alcançar suas metas iniciais. Grosso modo, Ulisses vence sua odisseia. E nós? E os brasileiros que ousarão decifrar o Enem no fim de semana tão próximo?
      É importante frisar os usos do exame. 1. Seleção para universidades por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), com hipótese para curso superior em Portugal. 2. Seleção para o Programa Universidade Para todos (PROUNI). 3. Seleção para Financiamento Estudantil (FIES). 4. Seleção para Ensino Técnico (SISUTEC). 5. Complemento na seleção para o programa Ciência Sem Fronteiras. 6. Alcance do Certificado de Conclusão do Ensino Médio para candidatos maiores de 18 anos e que ainda não concluíram os estudos, bastando atingir pontuação mínima de 450 pontos em cada uma das áreas de conhecimento e 500 pontos na redação. Assim como nas aventuras de Ulisses, há muito em jogo: graduação, diploma, estudo na Europa. Tantas aventuras, e tantos acomodados não iniciam a jornada. Triste.
ahaha Na narrativa, Ulisses precisa vencer inimigos sobrenaturais que tudo fazem para frustrar os sonhos do herói. No Brasil, o Enem também se mostra assim: vazamento de prova na internet, fraudes e erros na execução da prova, redações com inserções de hinos do futebol e de receita de miojo foram pontuadas. De fato, o Brasil, pátria educadora, atua contra os estudantes. Além disso, escolas (de elite, inclusive) usam pedaladas legais (jamais éticas) para fraudar notas altas no exame: ora impedem a inscrição de alunos considerados fracos, ora recrutam talentos formados em outras escolas para serem concluintes de seus quadros estudantis e alcançarem resultados passíveis de divulgação em campanhas midiáticas.
        Cada estudante que tenta o Enem é um Ulisses em potencial. Na narrativa, o herói tem apoio e aliados. Quem presta a prova também os tem. Familiares, amigos, namorados, professores. Sempre há quem leva, quem busca, quem incentiva, quem ajuda no cotidiano, fornecendo apoio material, intelectual, humano e espiritual. E assim, quem sabe, o candidato pode chegar a Ítaca como vencedor. E vocês, já se prepararam para a odisseia?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 20/10/2015

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A dor e o luto

 

        Na física, a resiliência significa a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original depois de submetidos à deformação elástica. Na natureza, a resiliência está presente na recuperação da paisagem após desastres naturais: depois da tempestade, da erupção vulcânica, das queimadas nas pastagens das savanas, depois da catástrofe, enfim, vem a bonança. Em relação ao ser humano, o termo associa-se à capacidade que o homem tem para se recuperar de uma situação adversa: uma derrota, um trauma, um dia de finados sem a presença de quem partiu e levou um pedaço de nós. No contexto social, destaco duas ideias antagônicas quanto ao caráter humano: a força e a deformidade permanente.
aaaaaaNo fim de semana, fui ao cinema checar “A ponte dos Espiões” (Roteiro dos irmãos Cohen, direção de Steven Spielberg e atuação de Tom Hanks = sem chance de erro). Uma frase marcante ainda ecoa na minha reflexão: quando submetido a uma perseguição oriunda do macarthismo e questionado se estaria preocupado, desesperado, impaciente, o personagem Rudolf Abel diz simplesmente: “Would it help? (Em que isso ajudaria?). Pergunto a você: em que ajuda o desespero?
         Muitas pessoas são fortes. Nos esportes, na política, na vida afetiva. Digito esta coluna com a incumbência e com o desejo de render homenagens aos finados entes que, de uma forma ou outra, marcaram minha existência. Penso em meu avô materno (tão cedo partiu), minhas vozinhas queridas, amigos, alunos tão jovens e cedo ceifados em acidentes banais de trânsito. E penso nos que sobrevivem e carregam, não raro, uma culpa quase clandestina de sobrevivência, como se cada riso posterior ao passamento do ente querido fosse um acinte, uma provocação. Muitos são fortes. Têm gana, revelam-se destemidos e audazes, trazem em si a força de Lars Grael, duplamente campeão: nos pódios e na resiliência. E o desespero, ajudar-nos-ia em quê?
       Muitos são os fracos. Desistem, conformam-se, entregam-se ao pessimismo e à derrota antes mesmo de tentar. Pessoas que não seguem suas existências após o trauma: algumas se rompem, esfacelam-se e perecem. Outras se deformam para todo o sempre. Fatores psicológicos explicam muitos casos: depressão, estresse, paranoia. Fatores sociais elucidam outros: falta rede de apoio, faltam segurança e seguridade social. Fatores humanos também esclarecem a questão: quantos assistem, de modo impassível, complacente e quase criminoso, à tragédia humana do próximo sem qualquer iniciativa de auxílio, de apoio, de altruísmo?
        Parece tão compreendido pelo senso comum: somos frágeis criaturas de carne e de desejos inconclusos, mas temos de viver como se fôssemos de ferro e plenos em nossas metas. Temos de sorrir, postar nossa felicidade, levantar as mãos sedentas e recomeçar as andanças. Sobra pouco espaço para a dor, para a introspecção, para o luto. Como equilibrar ideias tão excludentes sem pagar demasiado caro por nossas posturas? Qual o prazo de recuperação – está escrito na bula? Temos de ser resilientes e humanos. Precisamos de palavras amigas, de colo, de remédio de prescrição controlada, de mensagens religiosas, de algum fator que, enfim, reduza nossa dor, devolva-nos o riso e confirme o ditado popular: o que não nos mata há de nos fortalecer. E você? Tem sido elástico para driblar os dissabores da vida??
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 03/11/2015

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A flor, o jardim, a voz e a vida

 

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

(No caminho com Maiakóvski – Eduardo Alves da Costa)

        
         Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim. E não dizemos nada. Na noite de sexta feira, 13 de novembro, em uma região boêmia de Paris, ataques simultâneos roubaram 129 vidas instantaneamente, deixando centenas feridas, mutiladas, aterrorizadas. O grupo Estado Islâmico assumiu a autoria dos ataques, motivados por duas razões: 1ª) resposta à participação da França na coalizão internacional contra o EI na Síria e no Iraque; 2ª) ataque à obscenidade do local, um “antro de prostituição”.
       Estive no Bataclan. Em uma noite agradável, vi shows com amigos. Nada vi que pudesse atentar contra valores éticos. Senti o respeito que frequentadores locais e funcionários demostram pela cultura brasileira. Seu Jorge, Daniela Mercury. Eles se lembram de artistas nacionais que por lá já cantaram. O que leva o Estado Islâmico a enxergar obscenidade no local tão aprazível e dedicado à arte? Exatamente. Em seu devaneio intolerante, o grupo rejeita a cultura ocidental. Destrói sítios arqueológicos. Ataca museus. Dinamita estátuas. Em sua área de atuação, os terroristas já não se escondem: pisam as flores do jardim, degolam reféns e veiculam os vídeos macabros na rede ávida por sensacionalismo vulgar, e os dedos ágeis dos internautas se deleitam com o sofrimento humano “da hora”.
        Os ataques a Paris esclarecem o plano de internacionalização do EI. Atacar símbolos do mundo ocidental. Matar turistas, mesmo os simpáticos à causa dos muçulmanos em sua busca por território e por inclusão. Em sua paranoia, os terroristas acusam os franceses de obscenos e de adeptos da prostituição. Contudo, são os terroristas que sequestram mulheres (crianças inclusive) para escravização sexual. A má índole dessa gente recrutada nas periferias e nos bairros de elite não tem fim: os pobres alistam-se no EI porque não se sentem incluídos no capitalismo. Os ricos porque não concordam com os valores do mundo ocidental. A loucura é tamanha que chegam a pensar que a carnificina é santa e divina.
         Enquanto isso, no Brasil, grupos radicais locais apontam suas armas (leis, projetos, discursos) contra outras flores da democracia. Limitam e censuram direitos. Pessoas sórdidas que se colocam contra as liberdades individuais e usam discurso religioso (também em nome de seu deus) para camuflar sua hipocrisia e seu radicalismo intolerante. Aqui tanto quanto lá, na primeira noite, eles são tímidos. Com o passar dos dias, eles se agigantam e pisam as flores. Hanna Arendt já explicou tudo: a banalidade do mal.
       Enquanto isso, no Facebook, a patrulha ideológica e mentecapta condena a solidariedade aos franceses e usa discurso ufanista para justificar a insensibilidade: sou brasileiro – diz o ser idiotizado para condenar quem se solidariza com as vítimas do ataque. De minha parte, sou humano, e nada que é humano é estranho para mim. Vamos proteger as flores de cá e de lá enquanto ainda há jardim e cor no mundo. Antes que tudo fique sombrio, cinzento, mórbido. Sem arte, sem riso, sem alegria, sem show, sem vida. Obscenidades que essa gente pobre de espírito insiste em condenar. Em atacar. Um dia, eles nos arrancam a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada. E você? Está calado frente à escalada do terrorismo global? Está calado frente às atrocidades de nossos legisladores cunhados para o mal?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 17/11/2015

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Grilhões Contemporâneos

 

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

(Lira Itabina – Carlos Drummond de Andrade, 1984)

        
         Tarde de 5 de novembro de 2015. Centro de Minas Gerais – quem conhece não esquece jamais. A região de Mariana assistiu à tragédia anunciada há tempos por técnicos, ambientalistas, engenheiros: o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, de responsabilidade da mineradora Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP. O suposto acidente causou uma enxurrada de lama que inundou casas no distrito de Bento Rodrigues. Pessoas desabrigadas, fauna e flora comprometidas (espécies aniquiladas), economia debilitada. Esses são apenas alguns dos efeitos imediatos da onda marrom que se estendeu de Mariana até a cidade de Linhares, Espírito Santo. Pelo caminho, afetou Governador Valadares, Periquito, Uberaba... Sessenta bilhões de litros de rejeitos de mineração de ferro, água e lama – 24 mil piscinas olímpicas – lançados ao longo de mais de 500 km da bacia do Rio Doce. E agora, José?
        O governo sabia dos riscos. Laudos e notificações amplamente difundidos pela mídia provam a assertiva. IBAMA, Ministério Público da Justiça de Minas Gerais, FEAM (Fundação Estadual do Meio Ambiente). Todos sabiam, todos alertaram a empesa a respeito dos riscos, todos se intitulam visionários da tragédia. E quem fez algo efetivo para evitar os danos? Infelizmente, contudo, nossos legisladores, juízes e fiscais estão mais preocupados com projetos de maior interesse público tais como as restrições às liberdades individuais (por meio de normas esdrúxulas como o Estatuto da Família) e as dotações orçamentárias e as propinas necessárias ao seu enriquecimento ilícito. É possível, inclusive, que a possibilidade da desgraça gerasse lucro: propina, suborno, caixinha, cervejinha, jeitinho, CRIME! O Estado e seus órgãos ineptos nada fizeram. Não fazem. São cúmplices e partícipes. Sua dívida social, uma negligência NEFASTA.
        A empresa, seus acionistas, seus diretores sabiam dos riscos. Assinaram as notificações, fizeram reparos grosseiros na estrutura comprometida. Ocorre, no entanto, que a margem de lucro precisa ser mantida no alto, acima das responsabilidades, das obrigações, acima da vida e do contratualismo. Essas pessoas tecnocratas enxergam dividendos e cifrões, mas são cegas quando se trata de enxergar a doçura e a vida da bacia hidrográfica outrora vívida, agora amarga e amarronzada. Essas pessoas que moram longe da região afetada. Não enfrentam as consequências de suas ações delituosas. Ao contrário disso, encontram brechas na legislação para protelar suas responsabilidades. Jantam com as autoridades que, em tese, deveriam julgar os delitos. Entre multinacionais e estatais, uma associação VERGONHOSA.
          E o cidadão? Qualquer usuário de ferro está atado à tragédia feito cativo ao grilhão. O minério dos bens de consumo, o lucro, a economia, tudo está contaminado e marrom. Consumir o minério e ignorar as condições de sua extração. Adoçar o café e ignorar as condições de sua produção. Usar uma roupa (feia) da vitrina reluzente da loja (feia) de departamentos e ignorar as condições de sua produção em galpões de trabalho análogo ao escravo (muito feio, pavoroso, grotesco e abjeto). Não ver isso é isentar-se de responsabilidade. Assim como sempre foi amargo o açúcar que adoça nossos cafés e nossas vidas hoje e outrora também o ferro nos acorrenta aos crimes contra a região mineira. Nem disfarçamos nossas lágrimas inexistentes, não berramos contra o crime. Uma omissão nefanda.
          Percebemos, portanto, que a tragédia em Mariana exige de todos (governo, sociedade, cidadão) uma nova consciência ambiental a fim de evitar acidentes antecipados e esperados. Não podemos perpetuar uma indignação passiva e momentânea, catártica, que apenas minimiza o peso na consciência preguiçosa dos alienados. Devemos, isso sim, cobrar de nossas lideranças políticas e de nosso sistema econômico maior reponsabilidade no trato da questão ambiental. Devemos fazer isso não apenas porque o Rio é Doce, porque a natureza é bela. Devemos porque desejamos perpetuar a vida humana na terra também. Devemos porque se trata de um imperativo categórico essencial à vida. O brasileiro precisa aprender a lição de Drummond: O Rio? É doce. A Vale? Amarga. E você, José? Já tomou água hoje? Já abriu a torneira? Imagine-se em Mariana. É triste.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 01/12/2015

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A dura poesia concreta

 

         Alguma coisa acontece em meu coração quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João. Estou no centro velho de São Paulo, tão perto da Sé, do Pátio do Colégio e do bar Brahma, icônica casa noturna onde há anos Cauby embala as noites dos paulistanos em acordes que enternecem os amantes da música. Ao redor, prédios comerciais nos quais se elaboram planos da força da grana que ergue e destrói coisas belas: multinacionais, sedes de bancos, centros culturais e o Impostômetro, símbolo da sanha de arrecadação do Estado. É noite. Um mar de gente discrepante assusta em paradoxos: figuras esqueléticas usuárias de crack, boêmios nas calçadas do bar, pessoas vindas dos teatros e das casas de shows trancafiadas em carros (muitos blindados) passam pelo local indiferentes ao mar de gente (sobretudo negra) que perambula neste mais possível novo quilombo de Zumbi. 
        Alguma coisa acontece em meu coração quando caminho pela Oscar Freire, pela Augusta. Nas cercanias, vitrinas de grife disputam a atenção e o bolso de tanta gente que busca algo que lhe complete o visual - a vida, a alma. Já não há tantos viciados, tantos boêmios, tantos negros. Estou em um centro nobre de São Paulo. É dia. Entretanto, relâmpagos e trovões anunciam a chuva, e o céu se escurece, e a água cai na terra boa, a terra da garoa. Cai forte, forma enxurradas intensas, traz desconforto aos motoristas, correria aos pedestres, odor aos pelos dos cães de raça de pessoas de raça que adentram as lojas de raça em busca de proteção e de abrigo. Há pontos distantes de alagamentos, de enchentes, de deslizamentos de casas, de mortes. Não ali. Apenas um galho cai e danifica o teto de um Porsche para tédio de um engravatado que precisa pedir ao motorista que busque outro carro...
         Alguma coisa acontece em meu coração quando vejo o morador de São Paulo Oprimido nas filas, nas vilas, favelas. Não que eu me esforce por ouvir a conversa alheia, mas é inevitável quando o diálogo está tão perto na calçada. “Não posso ficar nem mais um minuto com você” diz o vallet à namorada vendedora da loja da esquina. Tomo café e ouço o diálogo (há algo no café que me fascina, e desde que o Santo Dr. Drauzio Varella disse em sua coluna que está permitido tomar várias xícaras por dia até altar para ele eu erigi). O manobrista mora longe, não em Jaçanã, ainda mais longe. Se ele perder o metrô, não chegará a sua casa em tempo hábil para lavar, passar, dormir e voltar no dia seguinte. Ele estacionou porches o dia todo (“Foram tantas naves hoje. Um dia será a minha!”) e corre o risco de perder o ônibus, o metrô, a noite. Depois, só teria o negreiro (ônibus da madrugada) para voltar à periferia e teria de andar muito entre escombros, ruas alagadiças e traficantes suburbanos. E sua mãe não dorme enquanto ele não chegar. É por demais poético. Eles se despedem com um beijo terno, com olhos de promessa. Eu tomo café.
           Alguma coisa sempre acontece em meu coração quando encaro de frente a cidade que me fascina tanto em sua magnitude concreta, erudita, discrepante, desigual, rica. Na rádio USP ecoam os versos de Criolo. Não existe amor em SP. Os versos são contundentes, eu os aprecio. Não existe amor em SP? Ouso discordar. Existe. Contudo, também há contrastes e violência. Crime e truculência policial. Motoristas raivosos que buzinam de dentro de seus automóveis, uma extensão metonímica de seus corpos, a fim de extravasar uma raiva, uma culpa, uma frustração. Há estrangeiros, há nordestinos, há estudantes, há judeus ortodoxos e uma baiana que vende acarajé. Todos no mesmo espaço, uma paz tênue existe entre tantas vidas heterogêneas. A vida pulula e grassa em SP. Shows, espetáculos, musicais, manifestações, ocupações. A Paulista explode em buzinaço, em gritaria, em discursos no vão do Masp. Palavras de ofensa ao prefeito, ao governador, ao senador, ao deputado: “Fora Dilma”, fora “Chuchu”, “fora Cunha”. Em São Paulo, os amores são brutos, mas estão lá, na dura poesia concreta das esquinas.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 15/12/2015

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Resoluções de ano novo

 

_______Todos sabemos a estória de Pandora: movida pela curiosidade, abriu a caixa (que não devia abrir) e libertou os males até então ignorados pela humanidade: a doença, a velhice, a guerra, a mentira... Assustada, fechou a caixa, trancafiando, dentro do objeto mágico, a ESPERANÇA. É inegável a semelhança entre a estória mítica e o misticismo cristão da expulsão de Adão e Eva do paraíso: nas duas narrativas, a mulher (curiosa e tentada por algum elemento sobrenatural) provoca um dano à humanidade ao praticar uma ação proibitiva. De modo paradoxal, todos sabemos a história dos grandes velejadores, dos grandes cientistas, dos grandes artistas: de Vasco da Gama a Steve Jobs, de Newton a Roald Engelbregt Gravning Amundsen - a ousadia dos curiosos move os cursos da história, trazendo a ampliação do mundo conhecido, a descoberta do novo, a inovação cultural, a geográfica, a estética. E agora? O que fazer no ano que se aproxima (após o carnaval - hahaha)? Assumir uma postura de precaução? Lançar-se aos mares nunca d’antes navegados? E você, vai escolher a cautela ou a maré?
_______Cinéfilo assumido (gosto de me entreter ao sabor de pipoca doce e salgada, de chocolate, de mentos, de m&m’s, de obras primas do cinema), fui conferir o episódio VII de Star Wars, O Despertar da Força. Na película, a esperança surge a todo instante em palavras e em ações. Analogamente aos personagens da saga idealizada por George Lucas, a humanidade encontra na fé e na esperança uma força motriz de suas aspirações, de seus projetos, de sua existência. Força intrínseca à sua própria condição: adoece, envelhece, luta, mente... só resta ao homem esperar que tudo dê certo. Ainda que sempre pareça fadado ao fracasso, o homem, anjo caído em desgraça, espera recuperar (ou alcançar) algo (uma graça, um objetivo) e se fia na esperança contra todos os prognósticos negativos. Abriu, abriram, abrimos a caixa, provamos o fruto... Agora, é crer na voz de Renato Russo e esperar que o sol brilhe amanhã mais uma vez. Você sabe?
_______Todos esperamos alguma coisa. Do governo, dos funcionários, do patrão, dos outros, de nós próprios. Esperamos comprometimento, lisura, ética, compromisso, respeito, sagacidade. E fazemos listas escritas ou mentais, declamadas e sonhadas, de tudo o que esperamos, sobretudo no final do ano, época dicotômica em que o senso crítico e o espírito da renovação invadem nossos corações e mentes. Espelhamo-nos na Fênix, nos ídolos, nos mentores, nas pessoas que nos espelham e nos motivam. Esperamos o quê? Perder peso, parar de fumar, ficar mais tempo ao lado das pessoas amadas. Aprender algo novo, ser solidário, gastar menos, ter renda para gastar mais, encontrar o amor. Todos fazemos listas. Esperançosos, encontramos uma explicação lógica ou mágica para o fracasso obscuro do ano moribundo e idealizamos sonhos iluminados para o vindouro. Cada qual com a sua própria UTOPIA.
_______De certo modo filosófico e psicanalítico, a esperança representa um sonho que sonhamos acordados. Sonho, logo existo – verdade maior. Em tempos sombrios e pautados pela crise (política, ética, ambiental, de identidade...), não nos afastemos muito da vontade de sermos melhores. Contudo, não basta idealizar, antes é preciso agir, buscando sempre a concretização das vontades positivas. Prega a sabedoria popular: não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje. Ouso polemizar: não deixe para amanhã o que você pode deixar para lá. Façamos a lista a fim de separar o que é essencial do que se mostra apenas acidental e pobre de espírito.
_______Todos já deixamos algo para amanhã. A procrastinação representa o adiamento de uma ação. Representa algo que, conscientemente ou não, deixamos para depois. Evitamos começar uma dieta, abrir um livro, encerrar uma relação já condenada pelo desgaste. Evitamos encarar uma situação adversa, abrir um exame, iniciar uma nova atividade profissional. Algo curioso e emblemático: a procrastinação é mais comum na esfera do dever. Raramente procrastinamos ações que nos propiciam prazer, deleite, êxtase. Minha mãe sempre diz que devo fazer logo o que deve ser feito. Ela atua como bússola moral e como bispa censora do meu comportamento. Todos temos uma voz na consciência: vá, faça, tente outra vez, e não pense que a cabeça aguenta se você parar. (Digressão da digressão: odeio que o corretor automático marque minhas silepses em verde. Corretor limitado.)
_______Todos já deixamos para lá alguma coisa. Alguém. Na linguagem técnica da psicologia do bar, das letras das canções, das frases de impacto dos sites de mensagens... é o desapego. Desapegar, em linhas gerais, significa deixar para lá. Pode ser algo benéfico, necessário e vital. Na acepção positiva, não se liga à desistência, e sim à coragem que o homem revela para assumir que já não é mais possível fazer, tentar, insistir. Deixamos para lá uma meta, uma amizade, um paciente, um amor. Contudo, na acepção sombria e negativa, mesmo quando positiva (paradoxalmente), há quem deixe para lá para tornar mais suportável a ideia da perda, da derrota, do fiasco. As uvas? As uvas estão verdes.
_______Todos somos humanos. Eu sou. Sou humano, falho e aclichezado em atitudes tanto quanto outros. Tanto quanto você que leu até aqui. Mesmo que se sinta único e personalizado – cuidado, é um risco. Também fiz listas outrora. E espero. Por exemplo, que a ignorância do bem não abra caminho para o mal. Que as atitudes intempestivas e irascíveis não tragam dor. Que a felicidade seja fruto do empenho e do caráter, jamais do espírito corporativista e ególatra de instituições públicas e privadas que drenam seres humanos descartáveis. Que a inveja e a limitação intelectual não provoquem danos ao esforço e ao talento. Que as pessoas possam ver o todo e a parte, sem nada ignorar de minha essência e de minhas idiossincrasias. Diz o poeta: para sermos grandes, sejamos inteiros. E paguemos o preço (alto) por sermos o que e quem somos.
_______Em 2016, eu espero muito. Espero ser mais feliz, menos sedentário. Quero viajar mais, mas sem ser alvejado por terroristas. Quero comer sem engordar. Quero ser resiliente para finalizar as ações que merecem desfecho. E quero ser sagaz para deixar para lá o que pouco importa, pouco acrescenta, pouco edifica em termos materiais e morais. Quero estar ao lado das pessoas que amo. Estar ao lado das pessoas que trazem paz, afeto, alegria. Quero dizer a elas o que aprendi e tento ter como norte: seja lá quem te mandou, meu amor te receber. Em 2016, eu espero muito. Fazer o que gosto. Estudar e aprender algo novo. Quero dar aulas (de redação) e ajudar meus alunos na concretização de seus próprios sonhos. Enfim, sou demasiado humano e tenho desejos humanos. E tenho esperança. E você? Espera o quê? Está de que lado da força?.
 

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 29/12/2015

 

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