Dicotomia nacional: Pobreza de espírito supera a de recursos

 

aaaaaClarice Lispector soube – como poucos o fizeram – retratar um traço essencial da sociedade brasileira: a exclusão social. Sua personagem Macabéa passa pela vida sem entender o real sentido da existência: sofre de abusos na infância, é feia, apresenta dificuldades intelectuais e não encontra o amor. No fim, morre atropelada e encontra, no atropelamento, a sua hora da estrela. De fato, o Brasil configura um país injusto e omisso em relação aos milhões de Macabéas que vagam pelo solo pátrio. O país do futebol e do jeitinho tem o desafio urgente de combinar democracia com eficiência econômica e justiça social. Assim, torna-se imperativo reduzir a distância entre dois brasis: um vai às compras, gera renda e enfrenta o temor da violência; o outro dribla a falta de recursos e alimenta devaneios sebastianistas.
aaaaaDesde 1500, riquezas são diferenças em solo pátrio. A trupe europeia, argonautas em busca do velocino de ouro nestas paragens paradisíacas do novo mundo – transmutado em pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro – erigiu sob o sol dos trópicos um país atrasado, forjado a partir do sofrimento de negros, de índios e de pobres. O país nasce legitimado a partir da criminosa distribuição de poder e de terra, tudo com a benção da santa-madre-igreja-católica. Amém. E o português, já disse o poeta, vestiu o índio naquela manhã de chuva. Que pena.
aaaaaHoje, em qualquer canto, a miséria desnuda sua face famélica e nefanda no rosto anônimo de nossas Macabéas que vagam em busca de emprego, de comida, de amor, de inclusão. Embora ostente o título de BRIC e esteja em situação até confortável no ranking das maiores economias do mundo, o Brasil despenca quando se medem a proporção de pobres ou o índice de desenvolvimento humano. Ademais, o rendimento da elite supera em dezenas de vezes o da maioria carente, e os eleitos (poucos) detêm recursos superiores ao montante dos 50% mais pobres. Este exército de desvalidos teria sua tragédia social aplacada se uma quantia ínfima da renda nacional fosse redistribuída. Contudo, elite ainda opta pela concentração, pelos gastos com segurança, pelas grades de proteção dos condomínios. Que emblemático.
aaaaaA morte não causa mais espanto. Fracos, doentes, aflitos, carentes carecem de educação, de água, de cidadania. Milhões de brasileiros pobres, ignorantes, pouco ou nada escolarizados (Macabéas) perfilam um painel grotesco de exclusão: sem estudo, com taxas absurdas de mortalidade infantil e, em muitos casos, proventos diários insuficientes para aplacar a obesidade criminosa de cada usuário do drive de redes de fast-food. De certa forma triste e emblemática, os ricos do lado de cá do Atlântico (em sua maioria) chupam sorvete importado para aplacar o calor, perfumam-se com fragrância importada para aplacar o fedor e disfarçam imperfeições estéticas com base e pó importados – já que a feiura e o fedor da alma não se ocultam. Quantas mazelas.
aaaaaGigante pela própria natureza, o país do futebol, do carnaval e das novelas globais resiste à necessária repartição da riqueza. Não educa os pobres, não financia moradias, não concede dignidade a seu povo. Porém, esbanja recursos na esfera pública e na privada: da compra de aviões e de deputados à aquisição de vestimentas vendidas em dólar nos templos de consumo. Enfim, até a pobreza tupiniquim denota duplicidade: carência de recursos de uns, falta de solidariedade de outros. Pobreza material, pobreza de espírito. Cada pobre com a sua. E você? Já encontrou a sua hora da estrela hoje?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 12/01/2016

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Sonho. Logo, existo.

 

aaaaaEstou em férias há alguns dias nos Estados Unidos. Basicamente, programas turísticos – por exemplo, parques temáticos da Disney em Orlando. Faz frio. Há brasileiros por todos os lados. Quase sempre, grupos familiares, mas excursões de adolescentes ruidosos e felizes também são comuns. E há os lobos solitários como eu. Pessoas sozinhas, na meia idade, encantadas com a beleza e com a magia dos parques, das filas, da pipoca, dos personagens que há tempos inundam nossas vidas no cinema, na televisão, na literatura. Por que não conheci a Disney antes? Não vim antes por 4 razões bem específicas e, creio eu, bem presentes na vida de todos nós.
aaaaa1. Outrora, na adolescência, faltou dinheiro. Os negócios de meu pai não prosperaram como ele esperava, e os tempos foram tão difíceis que nem Dickens saberia retratar mesmo após a escrita de Hard Times. Não falo disso com tristeza ou pesar. Eu era feliz. Jogava vôlei, tinha minha mãe, irmãos, amigos, parentes, animais... e lia. Livros do círculo do livro. Falarei sobre isso outro dia. Foram dias de carência. Mas passaram.
aaaaa2. Depois, faltou tempo em razão da escravidão aos estudos e ao trabalho. Duas faculdades, estágios, várias escolas. Mestrado em Teoria da Literatura. Reuniões, início antecipado de ano letivo, revisões. Tanta cobrança. Tanta entrega. Uma correria desenfreada. E a submissão a pessoas medíocres que não contentes em levar vidas sofridas faziam de tudo para atormentar a alheia. O Brasil precisa rever a estrutura empresarial. E educacional. Liberdade, ainda que tardia, abre as asas sobre mim. Foram dias de tormento. Mas passaram.
aaaaa3. Também faltou priorizar o parque. Sempre optei por outras paragens. Outras viagens, outros destinos. Achei, inclusive, que estava velho para parques temáticos. Bem, estou velho. Porém, não vou deixar que isso se torne um fator limitante. Acredito até que vou me divertir mais doravante. Foram dias de preocupação etária idiota. Mas passaram.
aaaaa4. Falta companhia. Minha agenda não bate com a dos amigos mais próximos. Logo, quando há tempo livre, opto por ficar perto deles. Eles também não querem. Ou não podem. Ou não priorizam os parques. Sempre há Paris. Rio. Rancho. Tudo tão urgente. Tão necessário. E as férias se vão. O tempo urge, a vida passa. E eu aprendi a viajar sozinho, na minha companhia. Sou meu amigo. Meu roommate. São dias bons. E vieram para ficar.
aaaaaRessalvas feitas, estou nos parques. E parte de mim está feliz. E a outra metade também. Se você leu até aqui, reflita sobre seus sonhos. E busque cada um deles. Vivemos tão pouco para vivermos tristes, pesarosos, escravos de circunstâncias nada edificantes. Tenho em mim muitos sonhos. Tanto já foi feito. Tanto há por alcançar. E você? Faz opções? Opte pela felicidade.
 
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 26/01/2016

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Notas sobre o Brasil, uma Roma tardia

 

aaaaaNos últimos dias, passou pelas avenidas, pelos salões e pelas entranhas do Brasil um samba popular, uma alegria epidêmica que se chama carnaval. Estamos em fevereiro, a pátria é tropical, nem todos têm um fusca ou um violão, mas quase todos correm atrás do trio elétrico, antes da chegada da indesejada das gentes (eu ia dizer que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, mas considerei a morte um tanto mórbida e troquei por indesejada). O carnaval – adeus à carne, na etmologia latina – remonta a origens pagãs e cristãs. De um lado, na Babilônia, as saceias denotavam uma inversão de papeis: um escravo assumia a posição e a cama do rei por um curto período, e o rei assumia o papel do escravo, sendo açoitado em público – no fim, o escravo era enforcado, e o soberano retomava a coroa. Indubitavelmente, a inversão de papéis permanece atuante nos festejos de MOMO: máscaras e roupas de toda ordem facilitam a criação efêmera de uma nova identidade, de uma fantasia que agita cada paralelepípedo das nossas cidades arrepiadas pelo som do Carnaval. Nas avenidas do samba, foliões excluídos podem ser rei e rainha, ainda que da bateria, e logo perdem o reinado após o devaneio. Nas avenidas do samba, foliões abastados podem ser mendigos, aedes, mas logo retomam a gravata, o cargo, o poder após o devaneio. Muitos, inclusive, usam o travestismo momentâneo sem perceber o quanto a mudança lhes cai bem. Trá trá trá trá, dispara a metralhadora para o frenesi dos transeuntes.
aaaaaTergiversar a respeito do carnaval não se mostra prática recente. Afinal, festas populares patrocinadas pela elite sempre estiveram presentes em todas as civilizações. Grécia e Roma legaram ao mundo festas denominadas dionisíacas e bacanais respectivamente. Havia em Roma as Saturnálias e as Lupercálias: aquelas ocorriam no solstício de inverno, e estas, em fevereiro, mês das divindades infernais, mas também das purificações. Todas essas festas duravam dias, com comidas, bebidas e danças. Momentos de intensa entrega humana aos prazeres e aos excessos do corpo e da carne, sendo estimulados o consumo de álcool (vinho dedicado a BACO) e a prática sexual orgiástica. O carnaval, uma evolução de liberdade até o dia clarear, representa, na gênese, uma dissolução de normas e de convenções tamanha que permite atos comumente condenáveis: travestimos, sexo casual, bebedeira. Outrora, o bacanal; hoje, o pegar geral ao ritmo da metralhadora quando anjos perfeitos com 1% de sacanagem saem de casa em busca de números. Tais excessos permanecem visíveis nos festivais de Parintins, na Sapucaí, no circuito Barra-Ondina, no bloco Oba ou em qualquer outro local destinado ao louvor ao estandarte do sanatório geral, o Carnaval, que vai passar. Amanhã.
aaaaaIncomodada com tais festas e com tais inversões, a Igreja e o Estado muito tentaram acabar com o carnaval. No Brasil, por exemplo, na época do Entrudo, festa de tradição lusitana quando as pessoas jogavam água e farinha nas outras, o Estado coibiu fortemente as manifestações. Na Europa, a Igreja, desejosa da uniformidade de pensamento, lutou contra o carnaval, e perdeu a luta. Foi preciso usar um ardil, uma estratégia, uma fantasia, e a Igreja enquadrou o carnaval, associando a data à quaresma (jejum e reflexão anteriores à Páscoa). O carnaval traz um período de intensa liberdade gastronômica, culminando na terça-feira gorda (Mardi Gras em grande parte do mundo cristão), um dia de total entrega aos prazeres da carne antes do adeus a ela por 40 dias. Como o homem come a carne acompanhada do vinho, os prazeres se excedem ainda mais. Como o verbo “comer” está associado a sentidos polissêmicos popularescos, os prazeres desembocam nas orgias e nos bacanais. É inegável: cada canção de axé ou de samba conota tal tradição em letras recheadas de ambiguidades, de trocadilhos, de indiretas libidinosas. Ouvi (sem muito querer nem prestar atenção) um grupo ao lado de meu banco numa praça qualquer de uma cidadezinha qualquer onde a vida passa devagar divagar a respeito da indecência das músicas carnavalescas atuais. Diziam que a festa perdeu o respeito. Perdeu valores. Perdeu a inocência das marchinhas. Eu ouvi e gelei. De súbito, um dos mais empolgados críticos se vira e me pergunta: VOCÊ NÃO ACHA?
aaaaaEm instantes infindos que só fazem confirmar a relatividade do tempo, pensei em dizer que sim e acabar tudo ali. Todavia, eu disse: NÃO ACHO. Ninguém perde o que não tem. Nada perde o que nunca teve. O carnaval é isso, foi isso e, espero, será isso. Por exemplo, continuei, as marchinhas de antigamente entoavam: “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é: BEEEEXXXAAA”. Ou então: “Se vc pensa que cachaça é água, cachaça não é água não. Cachaça vem do alambique, e água vem do ribeirão. Se você pensa que mulher é laranja. Mulher não é laranja não. Laranja, se descasca e chupa. Mulher não se descasca não.” AFE para a mediocridade, para a ignorância, para o falso moralismo. Não houve carnaval inocente. Isso não existe. Havia sempre um clima de sexo e de bebida no ar, na letra, na gênese. Assim como é hoje. A diferença reside no COMPORTAMENTO do folião: há quem pule na lama e saia limpo do lado de lá da imundície. Há quem precise de apenas uma gota de sujeita para enlamear até a alma. Outra nota sobre as canções. Elas não são politicamente corretas. Não apregoam valores normativos ortodoxos. Não pregam sequer os ditos e supostos bons costumes. Porém, são engraçadas. Sempre foram. Preconceituosas, misóginas, racistas. Tudo uma questão de tom. Já impediram Tiririca de cantar uma música ofensiva aos negros. Já disseram que o funk torna as mulheres cachorras e objeto. Já vociferaram contra o sertanejo que propõe o alcoolismo juvenil. Em muitos casos, uma bobagem. Conheço milhares de jovens que cantam funk e são estudiosos, talentosos, respeitosos. Quantas meninas descem até o chão, usam roupa curta e sabem seus próprios e intransferíveis direitos e valores. Quanta hipocrisia, quanto engodo, quanto engano. Vejo as fotos de meus alunos no carnaval (destaque para o MUNDO OBA) e fico feliz com a alegria deles: estudam física, história, literatura. São e serão médicos, arquitetos, juristas, pais. Muitos bebem, muitos não. O carnaval apenas configura um momento de alegria fugaz, uma pausa, alguns dias de excessos. A vida já por demais regrada. Não se proíbe um jovem de ir ao carnaval. Antes, ele deve ser ensinado a ser portar de acordo com o que ELE, sua família e sua sociedade julgam lícito. No mais, se adultos e livres, basta de censuras. Obrigado.
aaaaaO tempo passa, o Renascimento chega, a tradição do baile de máscaras e dos carros alegóricos surge na Europa. E o Brasil do antigo entrudo lusitano tudo aperfeiçoa e tudo carnavaliza e cria a Sapucaí. E é na avenida do samba popular que uma epidemia fugaz de alegria e de delírio divide opiniões. De um lado, o deleite, a entrega, a beleza e o ritmo compassado da bateria nota 10. Nada se compara a uma noite no sambódromo. Uma noite memorável. O ritmo dos passistas e da rainha de bateria, o som inigualável da cuíca, a paradinha mítica da bateria, a velha guarda, os ícones. Quanta cultura, quanta história, quanta beleza. De outro, a correlação com o circo romano, e o Brasil, nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber (ou com percepção mesmo) que é subtraída em tenebrosas transações. O povo condena o circo, mas adora o picadeiro.
aaaaaHoje, é terça gorda. Amanhã, iniciam-se a quaresma e o novo ano (metaforicamente). Resta saber se a alegria dos blocos, se a profusão das marchinhas, se o beijo furtivo dos foliões... se a vida boa, enfim, vai permanecer nos dias vindouros. Ou se vai passar. Esperemos que sim, apesar de os indicadores sociais insistirem nas previsões negativas. Dengue, Zika, Dólar, Impeachment, Corrupção, Violência. Tanta tragédia para tão pouca vida. O Brasil, nossa Roma tardia, encerra hoje o carnaval de 2016. Adeus à carne. Será? E você? Vestiu uma máscara momentânea (ou permanente)? Sentiu-se bem com a nova identidade? Arriscou a coreografia da cordinha, da tomada? Disparou a metralhadora? Está preparado para dias de privação?
aaaaaAtrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu... Em fevereiro, tem carnaval...
 

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 02/02/2016

 

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De fantoches a homens livres

 

 

Eu valho muito pouco, sou sincero,

Dizia o Um ao Zero,

No entanto, quanto vales tu?

Na prática és tão vazio e inconcludente

quanto na matemática.

Ao passo que eu, se me coloco à frente

de cinco zeros bem iguais a ti,

sabes acaso quanto fico?

Cem mil, meu caro, nem um tico

a menos nem um tico a mais.

Questão de números.

Aliás é aquilo

Que sucede com todo ditador

Que cresce em importância e em valor

Quanto mais são os zeros a segui-lo.

 

NÚMEROS – Trilussa

(Anagrama de Carlo Alberto Salustri: Itália/1871—1950)

       
aaaaaA manipulação representa um processo de apagamento da consciência individual e autônoma substituída pela reprodução de pensamentos, de ações e de desejos arquitetados pelo manipulador. De imediato, a Mídia surge como uma grande manipuladora de corações e de mentes, sendo a TV, o Rádio e a Internet seus veículos preferenciais para que alguém (detentor de capital humano, intelectual, material) possa incutir vontades no grande público. Paradoxalmente, o homem pode praticar e sofrer manipulação a serviço de interesses egoístas e mesquinhos ou de objetivos altruístas e solidários. Contextos históricos, atuais e culturais explicam o tema e trazem inquietação a respeito da ameaça sempre presente de qualquer forma de totalitarismo nos dramas existenciais.
aaaaaAto 1. Na Europa, após a Primeira Grande Guerra, floresceram algumas das mais trágicas e truculentas ditaturas da humanidade. Conscientes de seu carisma, de seu espírito de liderança e de suas habilidades de retórica, figuras como Hitler e Mussolini souberam usar a fragilidade de suas nações para escreverem (com lábia, sangue, censura e holocausto) páginas soturnas da história. Seus seguidores entregaram-se à ideologia tortuosa do regime nazifascista motivados pelo medo, pela adesão inescrupulosa, pelo fanatismo. E o mundo viveu a Segunda Grande Guerra.
aaaaaAto 2. No contexto atual, a manipulação perpetua regimes ditatoriais explícitos e também velados. De um lado, algumas nações supostamente socialistas fazem uso de censura, de cercas, de armamento pesado para a exploração do povo – e alguns ainda dizem que se trata de divisão igualitária da riqueza produzida, culpam o embargo e os USA, idolatram o sistema opressor como modelo de justiça e de equidade. Quanta ignorância. De outro, algumas nações supostamente democráticas fazem uso de assistencialismo, de corrupção, de propaganda para a exploração do povo – e alguns ainda dizem que se trata de um governo de esquerda, culpam as elites brancas, idolatram o sistema presidido (ainda) pela mais honesta das criaturas. Quanta demagogia.
aaaaaAto 3. A arte explica o tema e nos traz a reflexão necessária acerca da imperativa e categórica compreensão da miopia coletiva, combustível para a manipulação. O poeta italiano Trilussa viveu na Europa no momento em que as ditaduras de Hitler, de Mussolini, de Stalin, de Franco... horrorizaram o mundo. Com seu humor, escreveu: o ditador somente tem importância porque os seguidores manipulados executam seus planos de governo. Cada leitura do poema traz uma certeza inabalável: o mundo precisa do artista e da arte para se enxergar de modo mais límpido.
aaaaaPercebemos, portanto, que o homem evoluiu a partir de sua capacidade para persuadir o outro e, assim, alcançar seus objetivos (válidos e lícitos ou não). De certa forma, a manipulação decorrente da ação do médico, dos pais, dos professores e dos religiosos pode surtir efeitos positivos quando direciona o comportamento do paciente, do filho, do aluno e do fiel para o lado da cura, do caráter, da aprendizagem, do altruísmo. Contudo, também há lideres inescrupulosos que escravizam os seguidores, direcionando a força numérica destes para a maldade, para o vício, para o horror totalitário e tão contrário aos direitos humanos. O livre arbítrio diferencia o fantoche de um homem livre. E você? Já questionou uma ordem? Já ponderou se uma norma, se uma sugestão, se uma propaganda quer lhe abrir os olhos ou perpetuar a cegueira coletiva? Não sejamos zero à esquerda de líderes sádicos. Aprendamos a arte da iconoclastia. Abraços.
 

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 23/02/2016

 

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Entre a rosa e o direito – olha elas!

 

Adélia Prado: Com licença poética

 

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

-- dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

 

aaaaaHoje, dia 08 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, ser desdobrável e com vontade de alegria. A data é bastante controversa: para seus opositores, trata-se de uma maneira de reforçar a suposta inferioridade feminina – todos os dias seriam de luta, não apenas um. Para seus defensores, a data representa uma oportunidade de demarcar a luta das mulheres pela igualdade de fato na sociedade já que a igualdade jurídica está longe da realidade. Por que o dia 8? Conta-se que um incêndio em uma fábrica têxtil teria ocorrido no dia 8 de março de 1857 em Nova Iorque, matando operárias revolucionárias. Contudo, o incêndio real teria ocorrido em 1911, no dia 25 de março, às cinco horas da tarde, na Triangle Shirtwaist Company, matando mulheres (maioria) e homens. Era prática comum encarcerar operários revoltosos nas fábricas no final do expediente. Vale ressaltar, ainda, que no dia 8 de março de 1917, na Rússia, mulheres deram início a uma greve no setor têxtil, logo encampada por outros segmentos, um fato importante na Revolução Russa. Por convenção dos movimentos feministas (em especial a convenção da Dinamarca de 1910) e da própria ONU (Decreto de 1975), hoje, no dia 8, celebram-se as conquistas femininas, reforçando a luta pelos direitos ainda não plenamente usufruídos pela mulher.
aaaaaHoje, dia 08 de março, temos de entender o que se passa na cabeça de quem aceita os subterfúgios que lhe são impostos há gerações. Temos de ouvir inúmeras vezes a canção de Chico e entender como se vive sendo uma mulher de Atenas atemporal, universal. Por que se vestir para um marido violento e sedento de carícias plenas? Por que não fazer cena e aceitar o abandono? Por que, ainda, não sentir gosto nem vontade? Sentir medo apenas? Basta de uma condição submissa a parâmetros conservadores e estúpidos. Hoje, no dia 08, e sempre, para todo o sempre, vamos aprender a valorizar os gostos e as vontades de tantas Evas, Helenas, Joanas e Marias. Que elas possam ter gosto, vontades, arrancando carícias plenas. Basta de castração, de culpa, de impedimentos. Mirando-se no exemplo das mulheres de Atenas, as mulheres podem aprender, por antítese, como exercitar o exercício pleno de sua feminilidade.
aaaaaHoje, dia 08 de março, temos de repensar nossos conceitos em relação ao feminismo e à luta pelo dito, desdito, bendito e maldito empoderamento das mulheres. Nas duas faces de Eva, vislumbramos a bela e a fera em um certo sorriso de quem nada quer tudo querendo. As mulheres vão às ruas e exigem direitos. Não favores. DIREITOS. Vale lembrar o episódio conhecido com Bra-Burning (queima dos sutiãs), um protesto com cerca de 400 ativistas do WLM (Women’s Liberation Movement) na realização do concurso de Miss America em 7 de setembro de 1968, em Atlantic City, EUA. Protestavam contra a reificação do corpo da mulher, transformada em objeto pela indústria cultural. Elas espalharam pelo chão seus sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços. Um desnudamento da feminilidade associada à fragilidade e à submissão ao macho. Sim, não provoquemos: sexo frágil não foge à luta. E nem só de cama vive a mulher. Ela também vive de luta. Integra a Marcha das Vadias. Enfrenta o Castrimo em Cuba. É mãe da praça da Candelária. Madres de Plaza de Mayo, em Buenos Aires, para exigirem notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina (1976-1983). E temos o Femen com sua nudez politizada. Lady Godiva. Mandemos um salve para Rita Lee: Por isso não provoque / É cor de rosa choque / Não provoque / É cor de rosa choque.
aaaaaHoje, dia 08 de março, temos de entender que a violência contra um cidadão é estúpida, anacrônica, incompatível com o Estado Democrático de Direito. E, ainda mais grave, a violência sexual, verbal, moral, física contra a mulher tem de acabar. De acordo com dados da Fundação Perseu Abramo, a cada 15 segundos uma mulher é espancada pelo marido ou companheiro, no Brasil. Vergonha de ser brasileiro. Vergonha de ser parte de um país criminoso, infeliz, abjeto e nefando, pátria de homens-monstros que ainda se valem da força para disfarçar sua complicada, equivocada e horrenda virilidade. Temos de educar o povo para acabar com esse ciclo. Temos de punir quem pratica tais atos covardes contra nossa filhas, irmãs, mães, amigas, funcionárias, concidadãs. E ainda temos a Lei Maria da Penha e a DDM (Delegacia da Mulher). Incapazes de cumprir o Código Penal (É crime bater, não importa o gênero), o país tem de criar novas leis que não são cumpridas. Cada tapa contra a mulher macula a alma do povo brasileiro, povo de pátria nada gentil. Já espancamos escravos. Batemos em mulher. Batemos em criança e temos de ter uma Lei da Palmada. Triste o homem que não tem argumentos, não tem carisma, não tem sex appeal e precisa bater na mulher para se convencer de que é homem.
aaaaaHoje, dia 08 de março, temos de ir ao cinema e assistir ao belo e delicado “A Garota Dinamarquesa”. A história é baseada no livro homônimo de David Ebershoff e conta a marcante e inspiradora historia de Lili Elbe e Gerda Wegener. O enredo aborda o casamento e a obra artística de Lili e Gerda, descortinando para o público a jornada de Lili como pioneira transgênero. Já disse Simone de Beauvoir e todos sabemos: ninguém nasce mulher, torna-se. E a mulher transgênero é duplamente açoitada pelo mundo sexista mentecapto. Como é pobre de espírito o ser humano que rotula, estereotipa e discrimina outrem com base em suas próprias e singulares neuroses, manias, fobias, em seus recalques e preconceitos obsoletos e hipócritas. Por um mundo com maior aceitação das diferenças. Por um mundo livre de barreiras cimentadas com ódio e com rancor. Viver e deixar viver. E respeitar.
aaaaaHoje, dia 08 de março, temos de entender o real sentido de ser uma mulher em uma sociedade ainda sexista e machista. No Brasil, a genitália ainda define salários, castigos e direitos. A mulher, mero apêndice da figura masculina, teria papel secundário nos cenários político, econômico e cultural. Uma licença maternidade revela o preconceito. Certa feita, assisti à comemoração do dia 08 em uma escola privada onde lecionava. O coordenador misógino, machista e fascista entregava rosa às mulheres (as poucas professoras, funcionárias, alunas). No cotidiano, empresas evitam a contratação de fêmeas em idade fértil para não perder uma funcionária no meio do semestre. Outra feita, pediu à única mulher presente em uma reunião que buscasse um cafezinho. Senti-me enojado e contestei: Você quer café? Busque você. Mais do que rosas, as mulheres precisam de oportunidades e de direitos. E de rosas também. Se são rosas de amor e de carinho, mandemos toneladas.
aaaaaHoje, dia 08 de março, temos de relembrar Malala, de entender o movimento feminino sem atropelos, sem extremismos, sem devaneios. Como sorrir para nossas mães, esposas, irmãs se grande parte do mundo ainda não aceita sequer a escolaridade feminina? Como encarar o fato de que em Toronto, Canadá, e em São Paulo, Brasil, universitárias estupradas enfrentam a dor do estupro e, depois, na delegacia, são aconselhadas a usar roupas mais sérias em oposição à roupa de vadia que excita o homem e provoca o assédio? E ainda há quem não entenda os movimentos da Marcha das Vadias e do grupo Femen. Dizem ser pouca vergonha. Lamentável. Desavergonhado é quem exige sexo sem que a ação seja consensual. Mais incompreensão, sexismo, misoginia.
aaaaaNo Oscar, chama a atenção a campanha #AskHerMore, iniciada para pedir aos jornalistas que perguntem algo mais às mulheres no carpete vermelho além das questões direcionadas ao modelo e à cor das roupas. No mundo árabe tradicionalista, burcas ocultam as formas femininas. No Brasil, a mulher frutificada (Melão, Morango, Melancia e até Jaca) desnuda-se para ostentar as formas femininas. E a polêmica cresce em razão da ignorância, do preconceito opressor: não importa a roupa quando é um direito de escolha da mulher. Se ela quer, fique nua. Se deseja, use burca. Uma mulher está além de uma roupa ou de sua falta. Se a escolha da vestimenta é livre, não se pode condenar quem o faça livremente. Não podemos aceitar a imposição ou a presunção de culpa quando estuprada por um criminoso problemático que não aceita um não às suas investidas sexuais primitivas.
aaaaaPercebemos, portanto, que a data de hoje revela mais polêmicas que certezas. Leio, com espanto, que mulheres brigam entre si em razão do assovio e da cantada de rua. Para muitas, ofensa e assédio moral contrários ao comportamento politicamente correto. Para outras, um direito de expressão da masculinidade e uma forma de elevar a estima do alvo do assovio. Novamente, predomina a estultice geral. Transformar a mulher em objeto sexual e constranger sua figura em público com palavras e gestos grosseiros não significa, de fato e para todas, um elogio. Se ela quer, sendo uma adulta livre, tubo bem. Se não quer, que se cale o coro. Nas redes sociais, novo coliseu que se encarregou de dar voz a imbecis, a luta esquenta: feministas condenam atitudes por elas consideradas misóginas. Ativistas contrários a elas condenam o discurso julgado “feminazi”. Quanta incompreensão.
aaaaaEnquanto isso, hoje é dia 08 de março. Comemoramos o dia internacional da mulher. Espero, um dia, comemorar o início de uma campanha real e efetiva contra toda forma de machismo. Contra o estupro, contra o assédio moral. Contra a imposição de toda uma cultura voltada à redução do tamanho do sonho de nossas mulheres. Contra a necessidade de uma delegacia da mulher. Desejo comemorar, enfim, o dia internacional de respeito ao ser humano pleno em sua condição, sem sexismo. A luta é árdua, mas não desistamos dela. Vamos, antes, irmanados em busca do respeito a nossas mães, nossas irmãs, alunas, funcionárias, noivas, esposas. Afinal, pecar por omissão representa o pior pecado. E você? Já deu ou recebeu rosas hoje? E direitos?
 

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 08/03/2016

 

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Quatro notas tristes sobre a crise política

 

aaaaa1. A palavra ética deriva do grego e representa um conjunto de valores morais e de princípios culturais que norteiam as ações de uma dada sociedade em um determinado contexto histórico. A ética traz equilíbrio social, evitando prejuízos ou benefícios injustificados para os atores sociais. No Brasil, atual, entretanto, a palavra ética encontra-se bem afastada de seus sentidos etimológico e filosófico: o brasileiro está tão aturdido pelos escândalos políticos e pela criminalidade exorbitante que já não mais se espanta com os delitos. Antes, e ainda pior, muitos gostariam de ser parte do crime, condenando a corrupção não pelo fato de ela existir, e sim pelo fato de não participar do esquema. A ética não se confunde com as normas jurídicas. Ela se relaciona ao sentimento coletivo (às vezes, maniqueísta) de justiça, de correção de princípios e de valores. A dúvida: há ética na política brasileira?
aaaaa2. Do ponto de vista jurídico da presunção de legalidade, a escolha do ex-presidente Lula para ministro da Casa Civil da atual (ainda?) presidente Dilma Roussef está embasada em prerrogativas lícitas e muito disseminadas na política nacional. Prefeitos, governadores e a presidente escolhem ministros e assessores especiais a fim de perpetuar seus planos de governo. Em tese, seriam as pessoas mais capacitadas para o bom andamento da máquina pública. Em tese. No geral, a nomeação está mais relacionada ao favorecimento de aliados, uma prática comum e atualizada de nepotismo: como não é possível (em tese) a contratação de parentes, o governo infla a máquina com aliados. As dúvidas: Lula é necessário ao governo Dilma? Ela poderia (deveria?) escolhê-lo neste momento? Seria a nomeação apenas uma manobra para a mudança de foro e para livrar Lula da alçada de Moro? Se inocente, por que razão Lula não responde ao processo com provas, sem o uso de suas costas largas?
aaaaa3. Do ponto de vista jurídico da presunção da legalidade, o vazamento de informações sem critérios embasados no ordenamento jurídico constitui uma afronta ao estado democrático de direito. Em especial, o vazamento das conversas de Lula com seu advogado representa um acinte ao sigilo e ao bom funcionamento do amplo direito de defesa. Nesse sentido, o juiz Moro teria praticado um crime contra a privacidade do cidadão Lula e de outros. Sim, as escutas revelam dados, fatos e afrontas verbais. Sim, a população está enfurecida com o teor (chulo inclusive) das conversas. No entanto, duas questões são pertinentes aqui: 1) E se as conversas privadas de todos fossem liberadas nos jornais? Quem sobreviveria ao linchamento social? 2) É viável e aceitável valer-se de meios espúrios para o alcance de fins louváveis? Se os fins justificam os meios para x, pode-se dizer que também justificam para y? O escândalo de Watergate (Estados Unidos) e a operação Mãos Limpas (Itália) representam um legado. Quem leu?
aaaaa4. Por fim, o Facebook, o impeachment e a democracia. Tem sido difícil ler os textos raivosos publicados no face. Pessoas de ideologia nebulosa e de conceitos vagos tergiversam e ofendem sem grande embasamento histórico, jurídico, humanitário. Sobram raiva e xingamentos para todos os lados. Triste uma nação que não sabe dialogar. A força física e a ofensa verbal representam o argumento de quem não sabe (ou não pode por falta de direito) argumentar. No Brasil, todos são especialistas em futebol, em economia, em política e, agora, em direito. Sou formado em direito, fui um bom aluno, e ainda assim evito julgamentos precipitados e pautados pela emoção. É triste ler tanta mentira e tanto escárnio oriundos de míopes ideologicamente que só fazem postar seu vômito preconceituoso. No caso Collor, muitas lideranças foram às ruas pedir a vontade do povo (impeachment). No caso Dilma, as mesmas lideranças julgam o processo de golpe. Fica difícil defender pessoas que mudam de conceitos feito um camaleão ideológico.
aaaaaSou brasileiro, sou professor, sou um pequeno (minúsculo) empresário. Pago impostos, sofro com a incompetência do Estado, fico triste por ver um país tão grande e tão rico em sua diversidade sendo entregue a pessoas tão pequenas de caráter e de vontade para fazer algo justo e bom para todos. E você? O que deseja? Transparência e publicidade dos fatos ou privacidade? Impeachment ou continuidade do governo Dilma? Diálogo e respeito ou “cala-a-boca” e ofensa? É preciso saber escolher bem para perpetuar o tipo de Estado que desejamos legar às próximas gerações.
 

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 22/03/2016

 

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A lição de Kant

 

aaaaaUma mentira colossal repetida à exaustão torna-se uma verdade para muitos. Tal pensamento ajuda a entender o papel sociológico da mentira na construção da ideologia grupal. Explica o holocausto, o terrorismo religioso, a invasão ao Iraque, o golpe do impedimento. De forma patológica e sagaz, membros da elite (econômica, intelectual, militar, política) acreditam em seu poder de manipulação dos fatos para a construção de um programa de ações compatível com suas pretensões. Assim, forjam inimigos para fortalecer a noção de grupo, o que facilita a eliminação (em tese) do diferente, do opositor. O judeu, o infiel, o fanático, o golpista. Assim, questiona-se: como a mentira sobrevive e grassa se há tantas ferramentas para difusão da verdade?
aaaaaQuando crianças, aprendemos a mentir para evitar castigos. Sem um senso ético, jurídico e moral pleno, usamos a farsa para negar algo aparente. Por exemplo, apontar para o gato que dorme quando um objeto se quebra. Negar ter mexido na tinta mesmo com as mãos sujas. Quando criança. Como explicar isso nas lideranças políticas? Contas no exterior, pedaladas, suborno, caixinha, imóveis obscuros. Demasiados exemplos. Ainda assim, negam para evitar a justiça. Mentem. A conta de certo político no paraíso fiscal existe e é factual. O sítio e o apartamento existem. O termo de posse forjado para obstruir a justiça existe. E eles negam. Pior, há quem acredite. Se há golpe, só se for um direto de direita que nocauteia o senso crítico.
aaaaaHá quem veja o lado bom da mentira. De início, eufemismos sociais. Mentir ao amigo horrendo que ele parece bem para evitar grosseria. Mentir ao amante rejeitado que o problema não é dele quando, de fato, sim. Sorrir para pessoas quando o desejo interno pede silêncio e indiferença. Ademais, Platão e inúmeros seguidores defendem a mentira nobre. Um subterfúgio da elite (intelectual, política, religiosa) para evitar ou para mitigar um mal maior. No caso, a mentira justificada reduz prejuízos e pode, inclusive, produzir lucro. O resultado: uma sociedade de padrões éticos elásticos e flexíveis, os quais dançam e estivam ao sabor das circunstâncias.
aaaaaEnsina Kant que o ser humano não deve mentir. Nem relativizar a verdade. Seria um direito mentir para livrar-se de um dano? Como escolher quem tem a prerrogativa de ouvir a verdade? Kant categoriza seus imperativos. Contudo, as pessoas mentem. Para obter vantagem. Para poupar terceiros. Para sofrer menos. E enquanto a verdade calça os sapatos, a mentira já correu a internet, os comícios políticos, as manifestações, os cultos, o mundo. Muitos descobrem, inclusive, que mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. Porém, descobrem tardiamente. E você? Acredita na mentira nobre? Pratica eufemismos? Tem levado uma vida de enganos?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 05/04/2016

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Entre 367 e 137 – o horror nosso de cada dia

 

aaaaaOntem, dia 17 de abril de 2016, 513 deputados foram chamados para a defesa de seu ponto de vista em relação ao início do processo de impeachment da Presidente Dilma Roussef. Não me convidaram para a festa pobre que os políticos armaram em Brasília. Em vez disso, fui ao recinto de exposição de São José do Rio Preto a trabalho: Micareta Sertaneja do Bloco Pirraça, com shows iniciados por Wesley Safadão e capitaneados por Jorge e Matheus. Logo após as 22h, retomei o acompanhamento da crise política via televisão. Dois votos depois, senti saudades das letras e dos conselhos de Wesley, autointitulado presidente da safadeza. Quanto horror nos discursos políticos. Quanta vulgaridade.
aaaaaJá disse o poeta, e repito o lema: minha pátria é minha língua, a última flor do Lácio. Nas falas dos deputados, predominaram os erros crassos, os dogmas, as verdades aparentes, a tergiversação. Na ausência de lógica discursiva, sobraram gritos, gesticulações, ardor religioso no Estado que é laico (mas as pessoas não o são). Nas lacunas de coerência, faltaram fundamentação jurídica, clareza e sintaxe – concordância, regência, colocação. No relógio, 23h50. No placar, o fatídico 367 a 137. Um país dividido entre os favoráveis e os contrários à continuidade dos procedimentos do Impeachment. Nas ruas, os grupos (em proporção numérica compatível aos votos dos eleitos) dividiam os espaços públicos em seus protestos. E novas derrapadas na linguagem. Na ideologia. No pensamento. Um espelho do plenário.
aaaaaOutrora, na faculdade, fiz estágio em sociolinguística e deixo claro: não sou purista. Nem adepto da norma culta onipresente. Pontuo, apenas, que se torna difícil entender os motivos do voto quando o texto parece proferido em linguagem estrangeira e ininteligível. No espetáculo grotesco delineado, havia três palcos distintos. De início, em Brasília, uma babel ideológica na qual Tiririca parece menos palhaço que os demais. Em seguida, na rua: populares, aleatoriamente escolhidos pelas equipes de reportagem, proferiam impropérios, inverdades e falácias na mesma proporção de seus pares engravatados no planalto central. Por fim, sempre há o Facebook, bíblia e enciclopédia do analfabetismo funcional tão duramente condenado por Brecht em texto que poucos leram. E ainda menos entenderam.
aaaaaA sabedoria dos textos judaicos ensina: as verdades podem ser nuas, mas as mentiras precisam de vestimentas. No Brasil atual, as mentiras usam terno, gravata, bandeiras, placas com palavras de ordem. Vestidas com o manto da dissimulação, da intriga, do vilipêndio e do escárnio, as mentiras dos dois grupos ganham corpo, agigantam-se e ecoam no plenário, nas praças, nas redes sociais. No Brasil atual, as convicções revelam-se inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Estas podem ser julgadas falsas, mas aquelas parecem verdadeiras demais para que sejam abaladas. Convicções repletas de moralismo e de socialismo equivocados. Dois grupos tão díspares, e tão iguais. E uns mais iguais que os outros. A educação pode salvar o Brasil, mas os educadores também reproduzem tautologias discutíveis e apequenadas por seu português ruim. É o horror nosso de cada dia.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 19/04/2016

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Uma pátria em fuga

 

aaaaa"Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Com essas palavras incisivas, Guimarães Rosa exterioriza as emoções de uma mulher ao se despedir do marido que parte no conto A Terceira Margem do Rio. No ano de 2015, 13.288 brasileiros fizeram do aeroporto sua margem: partiram do Brasil, entregando à receita federal o documento oficial de quem deixa o país. O destino preferencial? Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e diversos países da Europa. Além dos emigrantes oficiais, há os ilegais em situação irregular no mundo todo. E os estudantes sem declaração de renda e que também foram buscar sonhos universitários na Bolívia, na Inglaterra, na Argentina. Uma fuga. De capital, de mão de obra, de cérebros.
aaaaaO Brasil, filho de uma pisadela e de um beliscão, nasceu a partir de fluxos intensos de pessoas que para cá vieram de maneira paradoxal. De um lado, o sonho de fazer a América: portugueses, italianos, espanhóis, japoneses. De outro, vieram os africanos cativos nos porões infectos e imundos dos navios tão bem descritos por Castro Alves. Toparam todos com os índios. E o Brasil miscigenado amulatou-se, marchou nas entradas e bandeiras, conferindo à pátria seu formato de harpa. O país continental, próspero, terra promissora de colheitas e de êxito. No entanto, o futuro não se delineou tão gigantesco quanto o sonho de grandeza pátrio. No meio do caminho, há um rochedo: nossos líderes políticos aterrorizam mais que Adamastor, causando o naufrágio precoce de uma nação toda ela refém de inúmeras mazelas.
aaaaaNo contexto atual, o palco tupiniquim revela um drama de enredo tripartite: violência desenfreada, recessão econômica visceral, crise política indescritível. Em razão disso, brasileiros dispostos a vender bens conseguem a quantia de U$ 500 mil e investem nos Estados Unidos. Engenheiros fluentes em francês aceitam o chamado do Canadá. Atletas, modelos e jovens promessas de diversas áreas fazem o trajeto inverso ao de Leonardo Pataca: deixam a pátria em busca de uma vida mais aprazível na Europa. Triste ver a evasão de divisas, de cérebros, de vivências. E encarar um país mais pobre e destituído de uma parcela importante de sua população: investidores, intelectuais, ídolos do esporte.
aaaaaMuitas vezes, ouvi, na infância, que a melhor saída para o Brasil era o aeroporto. E veio o milagre econômico. E o plano real. A estabilidade econômica. As bolsas. O etanol e o petróleo. Por um momento, fiquei, ficamos, confiantes no futuro real. Contudo, fica difícil manter tal esperança ufanista quando a violência devasta nosso patrimônio e ceifa a vida de nossos concidadãos. Quando a crise econômica fecha postos no mercado de trabalho, adia nossos planos de férias, reduz nossas compras, nossos pratos, nossos sonhos. Quando a corrupção agiganta-se e, amparada pelo cinismo de nossos líderes, dilapida os cofres públicos porque está confiante na impunidade. E você? Ocê vai ou fica se a oportunidade se lhe apresenta numa pátria estrangeira? Cê volta? Um dia, todos temos de encarar a terceira margem de nossas vidas.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 03/05/2016

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Guerrilha verbal, calibre do perigo

 

 

aaaaaQuanto menos alguém entende, mais quer discordar. As palavras cortantes de Galileu Galilei parecem talhadas para nossa triste época de ignorância desejada. Entre outros feitos, aperfeiçoa o telescópio, desenvolve princípios do relógio pendular, das leis da inércia e dos corpos, ademais de postular concepções do heliocentrismo. Perseguido pela Inquisição, escapa da guilhotina para entrar na galeria dos célebres homens da ciência capazes de mudar nossa compreensão da realidade. No fim da vida, já cego, redige tratados ainda hoje intrigantes e considerados ameaça à fé e aos dogmas. Questionado, disse: quanto menos alguém entende, mais quer discordar. Brilhante.
aaaaaO Brasil vive uma espécie de guerrilha verbal generalizada. Com tantas mídias à disposição do calibre ferino da palavra, qualquer ser humano minimamente alfabetizado consegue atirar contra tudo o que arranhe suas crenças. Indubitavelmente, a liberdade de pensamento e a de escrita revelam-se positivas e democráticas, valores essenciais da sociedade civilizada. Contudo, a ausência de humildade e, ainda pior, de ética e de senso comum, produz aberrações verbais cortantes e perigosas. O país está entrincheirado nas redes. Twitter, blogs, timeline do Facebook. Instrumentos propícios para a artilharia verborrágica.
aaaaaEscreve as injúrias na areia e grava os benefícios no mármore. Uma lição tão simples e tão valiosa. Devemos aprender com tal sabedoria: na areia, a maldade sofre a interferência das ondas do mar e se apaga. No mármore, a bondade pode ser eternizada e relida. Uma proposição: será que nosso eu futuro, daqui a 25 anos, ficará feliz ao reler todas as nossas postagens em redes sociais? Será que o aprendizado, a formação acadêmica e a vivência trarão mais saber e mais autocrítica, além de um pouco de vergonha pelas injúrias digitadas na segurança relativa do teclado, do perfil falso, do anonimato virtual? Veremos.
aaaaaUm aluno me disse que a natureza cria antas, e o Facebook as junta. O idiota político ou o politizado não se sentem bem sozinhos. Ele precisa de outros que ecoem seus discursos de ódio, de intolerância, de estultice. E a guerrilha verbal se fortalece, munida de preconceitos, de frases feitas, de pensamentos simplistas e simplificados para leitores tomados de ódio esquisitamente dicotômico: de um lado, os odiosos que aprovam as postagens apressadas, agressivas e atentatórias ao bom português. De outro, os odiosos que atacam as postagens, replicando comentários maldosos, ameaçadores, agressivos e atentatórios ao bom português. Com a polarização, surgem grupos, lideranças e um novo tribunal de inquisição. Um processo nocivo, perigoso e crescente.
aaaaaMáxima platônica: uma vida não questionada não merece ser vivida. Eu tive sorte. Quando mais jovem, mais tonto, mais agressivo e mais idiota, não havia Facebook. Meus brados verbais tinham a reverberação de um grupo de amigos. Com o tempo, comecei a refletir, reconhecendo a ignorância. É insensato e pernicioso digitar inverdades como leis científicas. Fiz letras e direito. Ainda há muito para estudar em tão curta vida. Choca-me o baixo nível do debate nas redes sociais. Faltam conhecimentos jurídicos, científicos, factuais e discursivos. Sobram clichês, ameaças, visões e previsões futuristas quixotescas. E pior: quanto menos alguém entende, mais quer discordar. E você? Relê postagens? Questiona valores? Percebe a insustentável insignificância de ser?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 17/05/2016

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Doença da virilidade

 

 

aaaaaA incidência de estupro no Brasil há tempos afronta a legislação, a dignidade humana e os valores da cidadania. Nas redes sociais, o tema suscita paixões antagônicas e exige uma revisão de conceitos a respeito da apologia à suposta virilidade. Enquanto o falso moralismo e a cultura do macho latino imperam, a mulher sofre ataques em três frentes. Sofre no estupro. No momento da denúncia por ser considerada culpada em razão do comportamento. Por fim, com o julgamento da vizinhança, do colega de trabalho e do internauta.           
aaaaaAristóteles ensina, na Ética a Nicômaco, que o ser humano feliz deve fazer o bem, aplicando a razão e o intelecto no controle dos desejos. Infelizmente, parcela imensa da população local não leu os pergaminhos do filósofo. Influenciados pelo alcoolismo, pela cultura machista e pelo hedonismo nas músicas populares, homens atacam meninas, filhas e senhoras nas escolas, na sacristia, no baile funk, no vagão de trem, no campus da USP. Selvageria bestial do desejo. A explicação atesta miopia ideológica e valores arraigados ao comportamento do brasileiro: a culpa é da vítima. Ela não se valoriza. Usa roupa curta. Batom vermelho. Queria dois, vadia, que aguente 30.            
aaaaaEstava no México na semana anterior. Com as notícias ecoando nas redes sociais, tive de explicar a colegas de viagem que o estupro não é lícito no Brasil. Não sou femista. Nem feminista. E, por toda convicção, não sou machista. Desconfio de rótulos e de estereótipos. Basta de hipocrisia falsa e moralista que condena faltas humanas após esta vida. Aprendamos a educar e a punir os delinquentes agora. Estou cansado da noção de pecado. Trata-se de crime atentatório aos direitos humanos inalienáveis estuprar um ser humano.            
aaaaaUm país que não respeita suas mulheres desde a origem. O ataque às índias com suas vergonhas expostas. Às negras nuas e dançantes, convite à transgressão. Às empregadas, às mulheres pobres. Às universitárias, às usuárias de transporte público. Até lenda de boto para ocultar estupro praticado no lar. Brasil, simulacro de Atenas, onde homens querem arrancar violentos carícias plenas. Sem concordância, sem reciprocidade, sem consciência, o corpo da fêmea é de Geni, maldita personagem que dá pra qualquer um. Nação misógina e arcaica, onde o refrão das músicas popularescas reduz a mulher a objeto: é fruta, é coisa, está de brincadeira e vai acabar alguém lhe passando a mão.            
aaaaaEstupro e impunidade na pátria dos valores familiares. Demagogos. Um país de vagão rosa. De Delegacia da Mulher e de leis específicas esdrúxulas. Kant, um tanto misantropo, defendia um categórico imperativo adequado ao momento: o homem deve fazer escolhas e agir para o bem de todos, não apenas para seu benefício individual. Já basta de sexo coercitivo. Vamos lutar pelo respeito, pela liberdade de dizer não. Pelo direito de andar desnudo sem ser molestado. Pelo direito de ser vadia e, ainda assim, não ser atacada. E você? Integra esta luta? Ser viril não significa ser criminoso.
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 31/05/2016

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Arco-íris desbotado: o ataque à parte é um ataque ao todo

 

Do rio que tudo arrasta, se diz violento,

mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

Bertolt Brecht (1898/1956)

aaaaaNa madrugada de domingo, 12 de junho, 50 pessoas morrem e 53 são feridas no ataque a tiros ocorrido na boate Pulse de Orlando (Flórida/EUA, terra do sol, dos parques, da diversão e dos patetas em que nos transformamos ante a escalada da violência), frequentada por homossexuais. Apressadamente, Estado, Mídia e Sociedade classificaram a ação do assassino como a de um lobo solitário, terrorista que atua sem a interferência de uma rede de apoio ou de um grupo financiador. Culpado solitário? Apenas o rapaz misógino (batia na ex-mulher), homofóbico (desprezava gays) e investigado pela polícia americana por ligações aparentes com o terrorismo islâmico. Todos erram nos julgamentos apressados. Resta saber se o erro advém de miopia ideológica ou de omissão. E quem apoia ou patrocina tal barbárie?
aaaaaA história revela-se repleta de casos similares de misantropia direcionada ao gay. No período medieval, a mentalidade cristã (doutrina do amor ao próximo) dominante imputa aos gays a pecha de criaturas pecaminosas e devassas, merecedores de morte e de ostracismo. A lição foi aprendida pelos nazistas (doutrina do holocausto), e o parágrafo 175 decreta à morte qualquer sujeito supostamente gay: triângulo rosa na vestimenta de prisioneiro. O mundo islâmico também partilha ideais homofóbicos. Em diversas regiões, é crime ser gay (Irã, Arábia Saudita, Argélia, Egito, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Sudão, Nigéria, Somália, Iêmen... a lista só cresce, alimentada pelo ódio e pela distorção de doutrinas). Fé e nazismo na mesma sentença. Combinação estapafúrdia, soturna e sombria. Poderoso instrumento para a perpetuação do ódio misantropo, misógino e homofóbico. 
aaaaaNo contexto atual, a mentalidade pretensamente religiosa (pretensa porque é falsa, arrogante e de falsos profetas) insiste em satanizar homossexuais. Por tal razão, cria e difunde a cultura do pecado, do medo, da castração. Em função de tal cultura, pessoas amedrontadas de assumir sua verdadeira identidade preferem uma vida falsa e trancafiada no armário, a despeito dos movimentos pela abertura: We are here, we are queer, get used. Outras, por ódio cultuado, preferem a agressão e o crime em nome de Jesus (defensor do amor e da célebre frase “que atire a primeira pedra quem nunca pecou”). De dois modos singulares, os enrustidos e pesarosos de sua condição e os heterossexuais intolerantes aos gays unem-se no propósito do extermínio: os primeiros matam a fim de eliminar o gay dentro de si (olha o recalque). O segundo grupo mata porque não acredita da tolerância ao diferente (olha etnocentrismo). Recalque e ódio. Combinação letal.
aaaaaEm resumo, não há lobo solitário. Antes, o lobo é coletivo, familiar, mora ao lado, integra uma alcateia toda ela agressiva, violenta, facínora e voraz. Ele puxa o gatilho, mas recebe doutrinação de uma sociedade doente que precisa, com urgência, rever seus conceitos éticos, morais e religiosos. Brecht já ensinou a lição: do rio que tudo arrasta, se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. Pais, professores e mentores religiosos criam a besta, a indústria armamentista vende a arma, os partidários estimulam a ação. E o lobo atira. Tão Hobbes, tão Nietsche. O lobo demasiadamente humano. Basta de ensinar o culto ao ódio, ao desamor, à violência e ao fanatismo. O Estado deve garantir direitos humanos a todos, independentemente de orientação de gênero, e não propor legislações esdrúxulas tais como as que proíbem travestis de usar nome social (se a trava quer se chamar Penélope Charmosa, ela tem o direito) ou as que dificultam a formação de uma família (Estatuto esdrúxulo de pessoas que desejam tomar o país para si). A sociedade precisa rever conceitos na educação de seus pares, abandonando os discursos de ódio misantropo e homofóbico que reinam nas escolas, nos bares, nas instituições religiosas. O cidadão gay deve aprender que o cordeiro resistente (resiliente) torna-se leão – há tempo para tudo, para o amor, e para a guerra: não a de violência, mas a civilizada, de busca dos direitos. Há tempos o arco-íris gay está desbotado. Triste de quem não pratica valores que tanto enaltece: amor ao próximo, respeito, ética, tolerância. Demagogia. Hipocrisia. E você? Reconhece o calibre do perigo? Tem empatia pelo próximo apenas quando ele é próximo? Próximo nas roupas, nas ideias, na fé, na ideologia. Isso não é amor. É alcateia voraz. Triste.
 

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 14/06/2016

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Luta pelo direito

aaaaaFui ao cinema assistir ao filme “Como eu era antes de você”, baseado na obra de Jojo Moyes. Em resumo, o personagem Will sofre um acidente e, paralisado e cadeirante, opta pela eutanásia. Os espectadores esperam que sua cuidadora Louisa Clark consiga demovê-lo da ideia de morrer. No fim, com apoio dos pais e da amada, o jovem recebe a injeção ambígua: para uns, libertação, para outros, covardia. Assim como nos excelentes “Menina de Ouro” e “Intocáveis”, o cinema traz a necessidade de o ser humano conversar com os familiares a respeito de vontades e de limitações. Precisamos falar sobre acidentes, tratamentos médicos, morte. Um tanto mórbido, mas impositivo.
aaaaaOs gregos definiam a eutanásia de modo positivo: boa morte. A abreviação da vida de enfermo incurável, controlada e assistida por especialista, advém do desligamento de aparelhos médicos ou da aplicação de injeção letal. Constitui um suicídio assistido nos países que aceitam a prática (Suíça, Holanda). Trata-se de crime nos países que a rechaçam (Brasil e nações onde predomina a tradição cristã nas leis). A eutanásia eugênica, herança de Esparta e dos horrores do Nazismo, permanece inquietante nas clínicas obscuras de fertilização nas quais escolhas discutíveis levam ao descarte de embriões e de fetos considerados ineptos por seus pais obcecados pela perfeição, pelo padrão, pela superioridade. Impossível não relembrar a Eugênia de Machado.
aaaaaNa medicina, há outros conceitos controversos. De início, a ortotanásia: redução gradual de esforços terapêuticos usados para prolongar a vida, morte natural. Em seguida e em contrapartida, a distanásia: adoção de todas as medidas cabíveis para prolongar a vida. A primeira abdica do uso de aparelhos de respiração. A segunda admite a liquidação de patrimônio em busca de tratamento e a permanência do doente em estado comatoso por tempo indeterminado. Por fim, há a mistanásia, morte social de pacientes que enfrentam a falência material e ética dos sistemas de saúde: não há leito, não há médico, não há remédio.
aaaaaIndubitavelmente, a eutanásia representa uma questão de bioética e de direito: deve prevalecer a vontade do paciente e de sua família? Devem prevalecer a legislação e as normas dos códigos de conduta? Deve o Estado permitir a eutanásia e aceitar a liberdade de escolha do ser humano, criatura dotada de arbítrio e condenada a ser livre? Deve o Estado podar liberdades julgadas atentatórias aos costumes gerais do homem, criatura bestial capaz de prejudicar outrem e a si própria? No Brasil, morremos na fila do SUS contra nossa vontade, mas não podemos tomar injeção letal quando assim desejamos.
aaaaaEu quis muito que Will vivesse. Desejei sua resiliência, sua superação. Chorei sua decisão, sua morte, a perda precoce de sua vida. Contudo, não o julgo um monstro egoísta e cético. Aceito sua vontade simplesmente porque não é a minha. Finalizo com algumas falas do filme: muitas vezes, não podemos mudar as pessoas e o seu jeito de pensar. O que podemos fazer? Amar as pessoas e respeitar suas decisões autônomas. E você? Já fez um testamento vital? Quando a indesejada das gentes chegar, luta pela vida? Ou luta pelo direito de morrer?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 28/06/2016

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Entre o imposto, a doação e o roubo

aaaaaA palavra “imposto” deriva do latim e significa, grosso modo, a imposição de um encargo financeiro a um contribuinte a fim de manter a estrutura de um Estado. Nesse contexto tributário, o imposto representa uma fonte de renda que o poder público usa para manter a folha de pagamento dos servidores, para financiar as obras e os investimentos públicos e para manter, ainda, os programas governamentais de prestação de serviços à população, tais como a educação, a saúde, a segurança, a moradia. Já o roubo, por outro lado, configura a apropriação indevida de um bem ou de um valor financeiro. Por fim, a doação constitui uma oferenda filantrópica de valor, de mercadoria, de bens. No Brasil, paira uma dúvida: o imposto é uma obrigação justa, uma doação ou um roubo constitucionalizado pelo poder político corrupto?
aaaaaOs impostos surgem na Antiguidade. Há indícios de sua existência no Egito, no Império Romano. Uma parte da colheita era devida ao faraó. Renda, mulheres e homens eram devidos à Roma para manter a unidade do império. Posteriormente, as narrativas de Hobin Hood imortalizaram a sanha do reino inglês por tributos abusivos. No Brasil, imortalizou-se a expressão "quinto dos infernos", representativo da cobrança de 20% sobre a produção de ouro na época da colônia. De certa forma, a manutenção das ordens superiores pela base da população encontra paralelo na cobrança de dízimos religiosos, algo facultativo e livre nas religiões sérias, mas imposto e taxativo nas denominações abusivas da fé da população. Nos Estados Unidos, nem mesmo Al Capone escapou da fúria da receita.
aaaaaEstou em viagem pela Dinamarca, pais conhecido pela alta taxa na cobrança de impostos retida na fonte do contribuinte: de 40 a 60%. Perguntei a algumas pessoas o que pensam a respeito. A resposta padrão: parece muito, mas não é. Escola, saúde, segurança são gratuitos e de boa qualidade. Idosos recebem auxílio na limpeza da casa e nas compras de mercado, além de enfermeiros para acompanhamento dos cuidados médicos. As ruas são limpas, as escolas e as universidades servem aos interesses do povo. O índice de corrupção encontra-se perto do nulo. Senti uma tristeza profunda. Pagamos impostos que sustentam uma elite política iletrada, ignara, vil e ardilosa. Uma elite política que faz compras e usa cartão corporativo nos templos do consumo em Miami e na Europa, alheia às necessidades de nossas crianças, de nossos idosos, dos professores universitários responsáveis pela formação dos jovens, dos policiais dos quais cobramos segurança e aos quais pagamos salários indignos.
aaaaaConsidero justo o pagamento de impostos. Diretos e indiretos. Considero válida a distribuição de renda proporcionada pelos impostos, de forma que os detentores de capital possam auxiliar no desenvolvimento pátrio. Contudo, causa-me asco tanto pagar para tão baixa contrapartida. Tanto pagar e pagar ainda mais por serviços privados de educação, de saúde, de segurança. Em tempo: amo meu país, e não sinto inveja dos dinamarqueses em razão da terra, do povo, da cultura. Sinto inveja mórbida de suas lideranças políticas. Um líder fraco faz fraca a forte gente. Não me sinto representado pelo congresso que me rouba e me força a doar sem ao menos me garantir a aplicação correta dos recursos subtraídos. E você? Está feliz com a tributação sofrida? Está bem representado pelos escorpiões engravatados que dilapidam os bens da pátria?
 

Texto publicado na coluna Painel de Ideias, do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto), em 12/07/2016

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