Índice

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1. Uma vela para todos nós: a caverna, o obscurantismo e a cegueira coletiva
2. Similaridades americanas: o homem repete a história
3. Hora e vez de Luis Inácio Lula da Silva
4. Em algum lugar além do arco-íris: Sim!
5. Cultura do ódio: tendência forte na moda e nas redes sociais
​6. Tem pedra no caminho
7. A lição de Werther – aprendamos antes que seja tarde
8. Erro perene de português: tristes trópicos outrora desnudos
9. A história da pós-verdade: entre fatos, versões e invenções
10. A inveja seca e mata – de olhar um pouco por dia
11. Uma fábula, quatro morais distintas. Escolha a sua.
12. Estado democrático de direito. Será?
13. A vida é uma pedreira
14. Ser e estar só
15. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
16. De volta ao jogo – militarização no Rio de Janeiro
17. Não retorna o que nunca partiu
18. Nenhum homem é uma ilha
19. Imagem e semelhança
20. Grito extremista
21. Pátria desfalcada
22. Da natureza humana e tropical
23. Quem é mesmo reflexo de quem?
24. Padrão e Preconceito
25. A doença da ignorância e seu impacto na pátria cega: Se o remédio é amargo, mas cura, bebamos antes que seja tarde
26. Ano novo, novas posturas

 

 

 

 

 

 

Uma vela para todos nós:

a caverna, o obscurantismo e a cegueira coletiva

        Um homem caminha apressado pelas ruas e começa a passar mal. Guarda-chuva, documentos, dinheiro, um alfinete de pérola na gravata, cachimbo e sapatos compõem sua imagem no dia chuvoso que seria seu último na vida. Dario cai, espuma a boca, atrai a atenção do público: prontamente, as pessoas se aproximam, especulam, iniciam um resgate e até arrastam seu corpo inerte e entregue às moscas. Levam o guarda-chuva. O alfinete. Sapatos. Papeis. Furtam e abandonam o cadáver. Um garoto negro aproxima-se e acende uma vela ao lado do cadáver. Gotas da chuva apagam a vela, devolvendo-nos o obscurantismo de nossa triste raça humana pensante, sentinte e cristã. Eis a síntese possível do conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan. Leiam. Por agora, segue uma tragédia póstuma de Natal em três atos. A peça segue firme em cartaz em solo pátrio, um dessucesso de público e de crítica.

       Primeiro ato. Na noite de natal, dois típicos jovens brasileiros em vestimentas brancas buscavam diversão, álcool e algo mais na noite infinda e obscura da cidade de São Paulo, onde não mais parece existir amor ao próximo. Perto de uma concentração de moradores de rua, travestis, gays e usuários de crack majoritariamente, iniciam uma discussão com uma travesti sintomaticamente chamada Brasil: uma metáfora da pátria desde sempre prostituída aos interesses externos e especulativos de elites sanguessugas. Brasil é esquálida, está bêbada e com a maquiagem borrada. Os jovens a agridem e passam a perseguir Raíssa, uma travesti atlética que corre feito Bolt pelos descaminhos do metrô: corre pela vida nossa Forrest. Luiz Carlos Ruas é vendedor ambulante no local. Conhece suas personagens, solidariza-se com a situação e tenta proteger as vidas já há tanto fragilizadas. Isso enfurece os rapazes brutamontes, homofóbicos, misóginos e truculentos, típicos machos latinos que aprenderam desde sempre a resolver seus assuntos no pau: se é desejo, estupro, se é conflito, pancada. O resto, todos sabemos: espancam Luiz Carlos até a morte mesmo quando seu corpo já estava desfalecido ao chão. Cai o pano. Apupos, aplausos, catarse.

       Segundo ato. Com a morte do vendedor, aproxima-se uma cambaleante figura alijada num passo bêbado. De muletas, abaixa-se ao lado do corpo e... rouba pertences da vítima. Afasta-se cambaleante com seu prêmio. Com a divulgação do fato na mídia, surgem os defensores dos covardes assassinos. Na canção de Caetano, um índio desceria de uma estrela colorida tão impávido feito Muhammad Ali. Viria tranquilo feito Bruce Lee. Luiz Carlos era conhecido como Índio. Apaixonadamente e solidário como Peri, tentou proteger as vítimas de agressões sórdidas. Não conseguiu, foi espancado e morto a chutes e socos pela dupla incontida. Onde está a polícia para quem precisa? Cadê a (in)segurança pública? E a solidariedade alheia: os presentes assistem à cena aturdidos e indiferentes. Agora, recebe injúrias nas redes sociais: diga-me com quem tu andas e te direis quem tu és. Vacilão: proteger travesti. Coitados dos rapazes: estavam protegendo sua masculinidade das travas. Iniciado o processo de desconstrução das vítimas, prontamente rebaixadas a escória: ladras, travas, ambulantes não pagantes de impostos, lixo humano catando migalhas entre os detritos. Quanta barbaridade, quanto ódio, quantos comentários reveladores da virulência social nefanda que se avizinha cada dia mais próxima. Pano cai. Catarse, aplausos, apupos.

       Terceiro ato. Imagino a dor dos familiares da vítima. Imagino a ausência de sua banca na boca do lixo paulistano. A falta de sua figura bonachona aos que com ele conviviam. Índio parecia querido e simpático. Assisto às imagens da agressão e fico imaginando onde estão a masculinidade e a macheza de dois jovens saudáveis que agridem uma travesti, perseguem outra e espancam um velho até a morte. Qual o sentido de criar um filho valentão, agressivo, opressor, sádico, cruel, assassino? Quando, enfim, a sociedade brasileira iniciará um processo de educação pautado no respeito, no amor, na tolerância? Quando a escola, a família e a igreja sairão das trevas e da cegueira coletiva, dando passos de humanidade em direção à saída da caverna sombria e pesarosa na qual estamos trancafiados pelo discurso de ódio? Quem irá nos redimir? Acender uma vela que jogue luz no obscurantismo no qual chafurdamos, tateando no escuro em busca de nossa humanidade perdida? Brasil mostra sua cara nas imagens: bêbada, borrada, maculada, agredida, puta. Um nome bem apropriado para sua pátria mãe desimportante. Triste.

 

Similaridades americanas: o homem repete a história

         Estive no Peru há alguns dias. Viagem de férias. Epifania de férias, melhor dizendo. No contexto americano, o Peru apresenta uma história similar à brasileira: colonialismo agressivo, opressor e fonte de todo o processo de aculturação do nativo, processo desencadeado pelas monarquias europeias em associação criminosa com o clero da época. O tempo passa, o colonialismo cessa (cessa, ou se metamorfoseia?), e a América ainda precisa de ridículos tiranos, o que não é diferente no Peru. Infelizmente, os anos de desgoverno corrupto em nada favoreceram o alcance da igualdade, o crescimento econômico, a equiparação social para os povos andinos. Por outro lado, a hospitalidade e a solicitude das pessoas, as belezas naturais deste país agraciado pela costa, pela serra e pela selva amazônica, a herança cultural de civilizações dotadas de técnicas hidráulicas, de construção e de arte capazes de assombrar até hoje o visitante constituem fatores bastantes para motivar muitas visitas mais. Machu Picchu, Lago Titicaca, Ilhas Ballestas, Linhas de Nasca. São tantas e incontáveis maravilhas. Sem mencionar a riqueza da fauna e da flora, que vai além do cultivo de coca e do manejo de alpacas, de lhamas, de guanacos.

          De um lado, não se negam as mazelas de um legado triplamente insidioso. Colonização, ditatura e evangelização do nativo. Eis a tríade dos problemas que afetaram e afetam os povos andinos. Conversava com um peruano que vivia na Bolívia, do lado de lá do lago Titicaca. Seu nome era Pablo, ele dizia, e muitas coisas trazia e traz ainda de lá: perfumes, roupas usadas, aparelhos eletrônicos. Articulado, poliglota, ardiloso, com nível superior: contrabandista. Ele disse: “estamos pobres, a educação e a saúde estão calamitosas, a insegurança reina”. Eis o legado do europeu e da ditadura. Ainda pior, as mulheres do grupo vendiam artesanato local quando se aproximou um missionário protestante e passou a criticar a venda de produtos denominados pecaminosos, um convite ao inferno. Ela me disse: “não querem que eu produza e venda minha arte, mas não me alimentam”. Chamam isso de evangelização? É isso o amor ao próximo? Quanta hipocrisia de falsos profetas que insistem em demonizar o outro a fim de perpetuar a escravidão, a vassalagem, a miopia ideológica avassaladora. Pessoas más e insidiosas, cuja perfídia parece infinda.

        De outro lado, a natureza, o legado cultural, o povo peruano. Desde o início, com a vida marinha costeira, o Peru já encanta. Lobos-marinhos, pinguins, gaivotas e aves diversas habitam ilhas agora protegidas. Um espetáculo sinestésico velejar pelas ilhas Ballestas, cujos céus se multicolorem da algazarra feliz de aves curiosas. Em seguida, o deserto, os animais típicos, a arte incrível que se produz por ali. Neblina, paisagens salinas, a brisa do pacífico, a herança de civilizações antigas e intrigantes. E chegamos à cadeia dos Andes: vulcões, abalos sísmicos, lagos indescritíveis, o voo do condor, a arqueologia Inca. Tudo é tão belo que machuca ver a destruição sofrida por essa civilização pelas mãos do conquistador espanhol e dos católicos de outrora e missionários de agora. Dói ver um templo inca convertido em igreja, em mosteiro, em sede de empresas. Ainda assim, o povo canta, sorri, come suas batatas, masca folhas medicinais, reverencia a natureza, a Terra, a vida. Por que não deixar viver a diferença? Por que o desejo de homogeneizar a cultura humana em detrimento da rica e sublime diversidade? Quanta vilania de quem se advoga o direito de sobrepujar o outro.

         Estive no Peru há alguns dias, e a energia emanada dos templos é incrível, mística, mítica. Um deles, construído com pedras que possuem muito quartzo, chega a alterar nossa cosmovisão. Machu Picchu representa uma epifania andina. Ver pedras de 12, 14, 32 ângulos incrustadas umas às outras em formação tão singular e tão resistente aos terremotos mesmo 600 anos depois de sua construção representa um alumbramento. Ver turistas de tantas paragens deslumbrados com o passado tão vívido reacende uma fagulha de esperança na preservação do patrimônio histórico global. Só nos resta reverenciar as culturas andinas tradicionais e esperar que elas não sucumbam a três novas e antigas ameaças: de início, o governo corrupto que esfacela os cofres públicos e condena a população ao descaso, mazela maior da América do sul ainda não desperta; em seguida, a globalização aniquiladora da diversidade cultural, cuja indústria cinematográfica, musical, têxtil e comportamental tudo quer sistematizar; por fim, e mais assustadora, a nova evangelização criminosa que subtrai, intimida e mata. Desperta, América do Sul! Desperta ó claro e amado sol. Deixa correr o orgulho latino em cada olhar, o canto e a aurora tropical.

Hora e vez de Luis Inácio Lula da Silva

         “Eu não sou o resultado de uma eleição. Eu sou o resultado de uma história. Eu estou concretizando o sonho de gerações e gerações que, antes de mim, tentaram e não conseguiram.” Com essas palavras, o ex-presidente e eterno companheiro de uma parcela expressiva da população brasileira assumiu a presidência da república no primeiro mandato, em 1 de janeiro de 2003. Luis Inácio: operário, pobre, nordestino, de orientação socialista, o sapo barbudo que parte da sociedade brasileira tanto execra desde então. Em sua fala, ele disse defender a saúde, a educação, a reforma agrária. E reafirmou o que seria a marca registrada de seu discurso: ele nunca faltaria com a verdade, seria sempre honesto, humilde, fiel à lei e à democracia. E instaurou estas quase duas décadas de governo petista no país. Como estão a saúde, a educação, a reforma agrária? Quanta decepção.

       Há algum tempo, Lula já não é presidente. Já não aparece nas notícias midiáticas como sendo “o cara” popular e reverenciado por líderes do porte de Barack Obama. Pelo contrário, ele se encontra citado na operação Lava Jato, conduzida pelo juiz Sergio Moro, e mencionado em delações premiadas de diversos corruptores de nossa pátria. Corruptores que outrora ele chamou de elites brancas. E com os quais se relacionou de maneira imprópria ao longo de seus anos de desgoverno. Foi particularmente difícil para mim o ato de digerir o envolvimento de Lula e do PT nos escândalos políticos. Logo eu que tinha entoado cânticos petistas em 86, 86, 88 e 89: Lula lá, brilha uma estrela. Fui eleitor de Lula, acreditei que ele seria diferente. Tinha o sonho da reforma social. Quanta decepção.

         Em 1995, a banda Paralamas do Sucesso canta e eterniza: Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou / São trezentos picaretas com anel de doutor. Lula sempre se orgulhou de seu passado pobre e sem acesso à educação formal. Sempre condenou os ricos, os empresários, os doutores. Disse ele em seu discurso de diplomação: “E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho como meu primeiro diploma o diploma de presidente da República do meu país.” Foi um momento histórico: milhões de brasileiros pensaram: se o sapo barbudo pode, eu também posso. Foi um dia de conquista, de esperança, de comemoração. Em 2015, os escândalos mais contundentes de Lula já não são mais ignorados. Ele também passa a figurar como suspeito de inúmeros crimes. Está lado a lado com a elite de doutores que sempre condenou.  Quanta decepção.

       Há poucos dias, Lula teve outra perda significativa. Já perdeu o símbolo de homem honesto e ili-bado. Perdeu a luta contra o impeachment de Dilma. Perdeu batalhas para a justiça, pois está citado em inúmeros processos. Perdeu apoio, popularidade, respeito. E morre sua companheira de décadas, Dona Marisa Letícia. No episódio de morte de sua esposa, vimos o quanto o brasileiro precisa evoluir como pessoa, como cidadão, como cristão que alega ser, como gente. Notícias de médicos sem ética, de panelaço comemorativo à morte de um ser humano. Piadas soturnas na internet, com montagens grosseiras, perpassadas à exaustão em grupos de whatsapp: em uma delas, Lula recebe o dedo da esposa com a legenda: começa a doação de órgãos de Dona Marisa, seguida de risos e de comentários de escárnio de muitos. O que se passa na cabeça de um ser humano capaz de comemorar a morte de alguém? Capaz de condenar o abraço solidário que Fernando Henrique Cardoso deu em Lula? É preciso separa duas coisas: uma coisa é o envolvimento do político Lula e dos seus em escândalos ainda não transitados em julgado. São suspeitos ainda. Outra coisa é festejar a morte e a dor do homem, ainda que ele tenha dado a seus discursos fúnebres uma conotação política. Parece não haver limites para o fascismo, para a maldade humana. E assim, sem respeito e sem empatia, o coro desumano segue a aniquilar a compaixão, o altruísmo, a solidariedade. Quanta decepção.

Em algum lugar além do arco-íris: Sim!

           No sábado, fui a uma cerimônia de casamento em minha saudosa cidade natal, Nhandeara. Foi ali, no Lions Clube, entre um canapé e uma taça de vinho, maravilhado com a beleza da noiva e com a alegria dos convidados, deliciando-me com os quitutes preparados pelo Buffet Bertold, das queridas Silvia e Andrea, que tive uma epifania: quão mágico é um casamento!  A decoração, a ilha de entradas, o aparador de doces, os trajes dos convidados, o violino, a orquestra. Tudo tão convidativo à utopia e à esperança. Minha prima Cristiane, a noiva, estava radiante! O noivo, Julio, emocionado. No fim da noite, uma dúvida me consumia ao retornar a Rio Preto: por que tanta gente boa, bonita, estável e incluída no rol dos bons partidos continua solteira? (Um aparte: eu continuo também).

       As estatísticas confirmam: as pessoas se casam menos, mais tarde e se divorciam muito mais. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a duração média do matrimônio caiu de 19 para 15 anos. Nos últimos 30 anos, o número de divórcios cresceu mais de dez vezes. Nas cercanias de minha mesa, contei 5 mulheres lindas, sozinhas e divorciadas. Não vi o estudo completo, por falta de interesse mesmo, mas percebi na prática que as pessoas bem situadas financeiramente e com rede de apoio familiar apresentam pouca disponibilidade para aceitar relações fracassadas. A idade média dos homens no altar passou de 27 para 30 anos, e a das mulheres, de 23 para 27. Mais velhos e mais preparados financeiramente. Culturalmente. Por outro lado, muitos já cansados da vida de solteiro e da busca implacável por um para ideal e utópico. E o número de casamentos entre pessoas do mesmo sexo também explodiu, registrando alta de 31,2%. Parece que todos querem ouvir a marcha nupcial, independentemente do gênero.

          Ainda assim, muita gente incrível está solteira. Eu conheço várias pessoas incríveis nessa situação, sobretudo mulheres. Por quê? Segundo estudos confiáveis de institutos britânicos, alemães e americanos, os quais deixo de citar (é um artigo, não um tratado científico), várias razões explicam a solteirice de parcela significativa da população, notadamente nos segmentos sociais alto e médio alto. Vamos lá: o trabalho e a satisfação pessoal e ególatra, fruto do estímulo ao individualismo, são fatores importantes. Ter carreira, sucesso, um apartamento descolado, ir a festas, comprar carros e bolsas representam sonhos mais importantes que a construção de uma vida a dois, a três se considerarmos a vinda de um herdeiro. Outro dado esquisito a princípio: a pornografia na internet desestimula casamento, atuando como um catalisador da busca por sexo casual ou pago e como um facilitador de adultério, provocando mais traição, mais divórcio, mais medo de casamento. Na Inglaterra, foco do estudo, homens com acesso a pornografia buscam sexo casual e sexo pago, desistindo do casamento para acesso aos prazeres carnais. As pessoas também optam por morar em união estável, mas evitam o altar. Isso é uma parte da história.

       A parte dois surpreende também. Preparado? Estudos confirmam certos estereótipos já há muito conhecidos pelo senso comum: casar engorda, coloca a carreira em segundo plano, afasta amigos da vida de solteiro, pode trazer complicações financeiras e está fora de moda: já não é sonho de muitos. Os casados comem em demasia, faltam mais no trabalho, aceitam menos promoções que impliquem mudança na rotina do casal. Mulheres casadas não aprovam que seus maridos saiam com os amigos solteiros, considerados má influência. Homens casados veem nas amigas solteiras uma espécie de pervertida. Pior de tudo: há o drama do ciúme. Enfim, os casais se fecham, transformando companheirismo em dependência e isolamento. E os filhos? São caros, exigem cuidados, com a preocupação alarmante em relação à segurança, à educação, aos valores. Nem todos estão dispostos a abrir mão de noites de sono, colocando uma vida dependente por anos a fio em um mundo tão conturbado. Fato: o casamento feliz exige tempo, energia e dedicação. Muitas pessoas não estão dispostas. Outras tantas praticam sabotagem consigo próprias, descartando o par ideal em favorecimento de uma utopia, de um medo de arriscar, de ser feliz.

         Enfim, um casamento é mágico. A noite incrível de Cris e Julio provou isso. Ela estava linda, dando-se o luxo de uma produção Vitor Breseguello. Entre um e outro clique de Jorge Bonfim, a noite seguia embalada pelas canções, pela boa comida, pelo clima festivo. No dia seguinte, domingo, cantarolei as músicas da cerimônia. Vez ou outra, revejo as fotos, tudo lindo. Até eu, solteiro inveterado, estava feliz além da conta. Agora, sobretudo para quem já leu os dramas nos romances de Flaubert e de Machado de Assis, e sabe que o casamento é bastante frágil, ameaçado pelo fantasma do adultério e do desinteresse, e está solteiro, uma questão indelicada: estas só é uma escolha sua ou dos outros? É opção ou escapismo? Sabotagem de quem prefere negar a possibilidade da união a partir de desculpas, de fuga, de frustração da felicidade? Pensamos nisso, pois o amor, o amor pode estar ao seu lado, à espera de um sim.

Cultura do ódio: tendência forte na moda e nas redes sociais

         Polêmica. Eis a definição precisa para o conceito de apropriação cultural, a adoção de elementos de uma cultura dita oprimida por outra considerada usurpadora. Teóricos raciais adeptos do conceito condenam a opressão racial e as relações desiguais de poder existente em todas as esferas: política, econômica, educacional, cultural. Na história, ingleses já foram acusados de usurpação de motivos indianos nos padrões têxteis. No contexto atual, estilistas enfrentam a fúria de povoados indígenas mexicanos inconformados com o uso de seus motivos e ícones tradicionais em roupas de fashionistas. E há o movimento negro em sua luta hercúlea contra a discriminação. De fato, o racismo existe e se relaciona a uma teoria infundada na superioridade de uma raça sobre a outra, com prerrogativas notáveis para os brancos. Sim, o mundo é racista, o Brasil é racista, e o preconceito constitui uma grande mazela global. Devemos considerar, ainda, as chagas da escravidão de africanos, o legado do regime de segregação do apartheid e a intolerância nos campos de futebol onde a bola divide espaço com bananas atiradas contra atletas negros. Tudo verdade. Ainda assim, como entender todos os aspectos da suposta existência apropriação cultural?

          “Moça, você não pode usar este turbante.” “Por que não? Indagou Thuane Cordeiro, jovem branca e em tratamento contra câncer, motivo de sua cabeça raspada oculta por um turbante comprado há pouco tempo na rua 25 de Março. “Você não é negra.” Foi a resposta das garotas negras que a interpelaram no metrô de São Paulo, com agressividade e em tom de ameaça. Que fique bem claro um ponto crucial: a luta pelo empoderamento do negro e pelo fim do racismo  é uma luta válida e de todos. Ainda assim, como entender o surreal diálogo acima reproduzido? Na internet, mundo virtual em que o anonimato deu voz aos imbecis, aos boçais e aos irascíveis, xingamentos contra a garota atingem níveis de sordidez inimagináveis. Até sua morte foi apregoada. Lamentável demonstração de quão baixo pode ser um debate quando inteligência, informação, conhecimento prévio e respeito cedem espaço à virulência dos ensandecidos. Que triste para os quadros do movimento negro: saem de cena os discursos, a empatia e a grandeza de Martin Luther King, Malcom X, Jesse Owens, Rosa Parks, Castro Alves. Em seu lugar, o vazio ocupado por jovens de português ruim, de ideias ruins, de comportamento ruim, nefasto e vil.

          No mundo todo, avolumam-se denúncias contra a apropriação cultural. Alguns fatos e acusações: o estilista norte-americano Marc Jacobs levou à passarela modelos brancas com dreadlocks. Miley Cyrus cantou, dançou e gesticulou feito uma negra. Beyoncé imitou e estereotipou uma indiana. Tudo com o aval dos empresários capitalistas e donos dos meios de produção que dominam a mídia e a indústria. O movimento negro acusa estilista e músicos de usurpação de direitos. Seria mais plausível e mais autêntico um desfile com modelos negras usando dreads? Seria sim. Seria mais autêntico colocar uma mulher indiana vestida de indiana? Seria sim. E um gesto? Existem gestos associados, historicamente inclusive, a negros e a brancos? Existem sim. Temos o gesto de apologia nazista associado ao branco opressor. E os punhos cerrados do movimento negro, na célebre, celestial e icônica imagem de Jesse Owens. Ainda assim, como definir, hoje, na dança de uma cantora, um gesto de negro e um gesto de branco? Não seria uma homenagem de Miley? Não seria uma liberdade de expressão de Beyoncé? Não seria liberdade criativa e comercial de Marc? Tudo tão polêmico, tão difícil.

           Fui escutar o movimento negro e aprendi uma lição: para os críticos e oposicionistas à apropriação cultural, é preciso analisar a questão indivíduo/sociedade e grupo. Quando um indivíduo usa algo porque se sente bem e se identifica, numa homenagem sem estigma, sem a intenção pejorativa, não se pode condenar seu ato. Quando um grupo rouba, registra patente, usurpa para lucrar, reduzindo o papel do oprimido, com intenção pejorativa, pode se falar de apropriação. Ouvi muitos exemplos. Não concordei com tudo, mas entendi o quanto ainda machuca o legado da segregação racial.

      Na história, o choque cultural sempre existiu, com perdas irreparáveis para grupos oprimidos, escravizados, descobertos, vítimas de aculturação. E também houve trocas, assimilação, intercâmbio, admiração. Vejamos: romanos e gregos, europeus e americanos, ocidente e oriente. Tantos pares supostamente antitéticos e repletos de trocas. Por exemplo, o Brasil come pizza e feijoada. Usa canga hippies. Ternos italianos. Bolsas em motivos xadrezes da Burberry. Tudo tão misturado, tão repleto de influências. Por exemplo, meu primo Ronaldo é branco, usa dreads incríveis há muito tempo e é um artesão. Ele também usa turbante. Deve cortar o cabelo e tirar o turbante? Não creio nisso.

      Enfim, perpetua-se o racismo no Brasil de maneira tão sórdida e arraigada que se torna difícil atenuar os efeitos malévolos de seu legado. Precisamos falar sobre isso. Na USP, um grupo polêmico promove ocupação e invade aulas para discutir o tema. Algumas intervenções são pautadas pelo enfrentamento. Uma dúvida: cadê os negros na USP? Em Brasília? Nas escolas particulares? No desfile de Marc Jacobs? Como alcançarmos o bom senso sem que uma jovem seja ofendida na rua e nas redes sociais por usar um turbante? Precisamos incluir mais e segregar menos. Li que punks de raiz batem em punks de grife em São Paulo: o punk da periferia execra e agride o poser e fake dos Jardins. Com que direito? Li que garotos gays acusam um rapaz heterossexual de apropriação cultural por usar camiseta rosa, uma cor da identidade gay. Ou por cantar Madonna, uma cantora gay. Como pode: um macho opressor cantar Madonna? Li e estou perplexo, preocupado com o rumo que a questão racial não resolvida pode tomar. Falta debate. Falta respeito. Falta legislação que defenda os grupos de artesãos tradicionais contra a sanha capitalista e usurpadora de lucros. E você? Usurpa cultura alheia, homenageia, incorpora, mistura tudo? Cadê o sonho do multiculturalismo? Imaginem, vocês, que fui comer um acarajé na feira de Salvador. Uma das baianas era branca, de turbante e magra. De dreads. Como pode?

        Vamos separar o indivíduo da postura grupal e opressora. Por favor. Deixa a mina de turbante, deixa us cara macho de rosa, deixa os branco de dread, deixa uz otro em paz. E vamos lutar pela integração, pelo respeito racial, pela presença maciça de negros na Usp, no senado, nas instituições financeiras. Um ser humano vai além de sua aparência, de sua capa, de seus acessórios. Um ser humano pensa, sente, ama, humaniza-se e, inundado de humanidade, tem empatia, solidariedade, admiração, afeto. Abraços e beijos a você que me lê.

Tem pedra no caminho

         A Sharia representa um conjunto de leis islâmicas baseadas no Alcorão e responsáveis por ditar regras de comportamento dos muçulmanos. Entre inúmeros preceitos, prevê apedrejamento de adúlteros. De acordo com estudiosos do islamismo, a regra valeria para todos, mas são mulheres as vítimas preferenciais de tal barbárie abandonada pela cultura cristã desde o instante em que a Bíblia propaga o célebre discurso “que atire a primeira pedra quem nunca pecou”. No dia 15 de fevereiro de 2017, a travesti Dandara dos Santos foi brutalmente espancada, caluniada e apedrejada por 12 seres desumanos, sendo a maioria composta por adolescentes impiedosos e acobertados por uma lei esdrúxula e cruel de proteção a menores assassinos. No dia 15 de fevereiro, muitas pedras foram lançadas em direção a Dandara, ferindo, ainda, a democracia, os direitos humanos de quem ainda se sente humano e parte de minha esperança na humanidade. No dia 15, mais uma Geni encontrou nas pedras o martírio e o desfecho decorrentes do preconceito vicejante na mente deturpada de uma parcela irascível e odiosa da população.

          Como entender a cena? Uma falsa imputação de crime teria sido o estopim para as agressões. “Pega ladrão!” – grita alguém da turba odiosa. Em seguida, os homens (precisamos rever a educação dos meninos e os conceitos de virilidade), sobretudo menores já conscientes de suas ações absurdas e inimputáveis, agridem a alegre, querida e sonhadora Dandara. Ouvir seus chamados pela mãe constituem imagens que me assombram. Por que tanto ódio, tanta barbárie? Não havia alguém na rua capaz de deter as agressões? São todos cúmplices. Um dos responsáveis já responde por outros crimes, de homicídio inclusive. Por que está solto? Por que voltarão em breve para as ruas a despeito da brutalidade das imagens? O que esperar de uma nação que pratica falsos justiçamentos à luz do dia sem que a maioria avizinhada do crime possa se levantar contra os ignaros que perpetuam o morticínio? Taca pedra na Geni, parece ecoar a omissão do coro.

        Dizem por aí que o Brasil representa um país laico. Mentira. A ingerência de falsos religiosos e de parlamentares infames no cotidiano jurídico e cultural do país prova isso. No mundo todo, as nações que deslizam da democracia para a intolerância religiosa apenas confirmam ataques aos direitos humanos. Aqui, não é diferente. Nas mensagens a respeito da morte brutal de Dandara, contra quem tacaram tantas pedras, percebe-se a transfobia: sentimentos negativos em relação a travestis, transexuais e transgêneros. Muitos exaltam o crime, dizem que ela roubou (mentira), que mereceu, que é uma abominação de calcinha. Até quando o machismo e o sexismo farão vítimas por aqui com a condescendência da lei, dos cidadãos, da cristandade? Nos discursos de ódio, uma pedreira enorme multifacetada. Risos, escárnios, gracejos e uma assertiva dantesca: “Já vai tarde” – bradam os supostos defensores da moral da família, os assim intitulados bastiões da moralidade. Não me surpreenderia saber que os assassinos de Dandara já tivessem se deitado com ela em ocasiões outras. No Brasil da transfobia, não há limites no absurdo.

          Dandara dos Santos está morta aos 42 anos, e pouco sei, sabemos, sobre ela. Viveu apenas gay até os 18 anos. Iniciou uma metamorfose em seu sonho de liberar a figura feminina. Abandonou o nordeste e perambulou por São Paulo feito tantos Fabianos em busca de uma vida melhor. Quebrou a cara, voltou a Fortaleza e passou a viver com a mãe na vizinhança de seus algozes. Gostava de ver televisão. Bebia, era alegre e espalhafatosa. Ajudava vizinhos em situações de necessidade. Fumava entre risos largos, com a cabeça jogada para trás. E tomava café. Gostava de seu nome: Dandara. Talvez, uma homenagem à figura do Quilombo dos Palmares, figura feminina forte, talvez lendária, talvez real, mas uma guerreira. A travesti tinha sonhos: montar um salão de cabeleireira, comprar um carro. Ser feliz. Morre clamando pela mãe. Há uma gota de sangue impregnada nas mãos de cada um que já fez de um ser humano chacota por sua condição de gênero. Não importa o tamanho da pedra, se uma piada ou se um golpe brutal. Ela morre no dia 15, mas sua dignidade já vinha sendo apedrejada há tempos. Não tem graça alguma.

       “Que atire a primeira pedra quem nunca pecou” – a mensagem não é clara? Não seria um impe-rativo cristão inabalável e peremptório? Ainda assim, muitas pessoas jogam as pedras, que se revestem de inúmeros significados. Piadas imbecis, ataques verbais, surras, apedrejamento real e gravado para perpetuar o dia triste da morte de Dandara. No poema de Drummond, tinha uma pedra no meio do caminho. A caminho de casa, Dandara encontra várias. A caminho da real democracia, há montanhas inteiras de ódio, de preconceito, de violência. E nós? Quando vamos esvaziar o saco de preconceitos, de estereótipos e de atitudes nefandas que trazemos atado à cultura bárbara para atirar contra indefesos? Lutar contra os ignaros, por vezes, é uma luta vã. No entanto, lutemos mal rompe a manhã. Já basta de cegueira coletiva. Uma vela e uma prece para Dandara. Outras muitas para o Estado Democrático de Direito brasileiro.

A lição de Werther – aprendamos antes que seja tarde

         Em 1774, o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe publica uma obra-prima: Os sofrimentos do jovem Werther, marco inicial do romantismo na literatura. Na obra, o protagonista Werther apaixona-se profundamente por Charlotte e sofre com a impossibilidade de consumação amorosa. Triste e desapontado, o jovem enxerga na morte uma solução para seus problemas existenciais: Somente o túmulo poderá libertar-me desses tormentos – diz ele em uma de suas frases cortantes. Na vida real, estudiosos tentam explicar o chamado Efeito Werther: onda de suicídios verificada após a publicação do livro. Estamos distantes da Alemanha de Goethe no tempo e no espaço, mas o livro é relevante para compreender a dor do outro.

      Pesquisa da Universidade de São Paulo e da Organização Mundial de Saúde confirma: o Brasil destaca-se no ranking de ocorrência da depressão mundial com 18% da população em estado deprimido há pelo menos um ano. Se mudarmos a abordagem da pesquisa, caímos da terceira posição em ocorrência para a quinta em número de pacientes em tratamento. Obviedade assustadora: tem muita gente deprimida sem auxílio médico. Para muitos aflitos e sem tratamento, a liberdade está na morte: tristes trópicos, contamos um suicídio a cada 45 minutos. Como entender a epidemia de tristeza? Como evitar os resultados trágicos?

          Temos de falar a respeito do tema sem o habitual viés do tabu, do preconceito, do medo de abordar um assunto por sua conotação polêmica. A depressão é uma doença crônica, recorrente e com alta concentração de casos na mesma família. O deprimido revela-se irritado, tristonho ou atormentado, com a sensação persistente de tristeza. Perde interesse pelas ações diárias, com alterações no sono, no apetite, no nível de energia, na concentração, na autoestima.

        Uma vez instalada, a depressão revela-se agressiva, virulenta e, muitas vezes, letal. Acomoda-se à vida do enfermo e se espalha em metástase por todas as esferas, governando as vontades do doente até o estágio em que a recuperação parece impossível. Feito um Sísifo atormentado, o homem deprimido arrasta sua dor até o dia em que ela desaba montanha abaixo, levando consigo os fragmentos de uma vida triste. A depressão compromete relações familiares, amplifica o número de divórcios, tumultua as relações pessoais com os amigos, prejudica estudos e vida profissional. Perdas financeiras e humanas incalculáveis. No rádio, ao longe, ecoa um verso sintomático: Tristeza não tem fim, felicidade sim. Um arrepio me assola, assombra, nocauteia. Tristeza não tem fim, felicidade sim – insiste a voz do lado de lá das ondas sonoras da frequência modulada em Hertz. 

      Predisposição genética. Disfunção biológica. Dramas existenciais psicossociais. Inúmeros fatores explicam a tristeza. Infelizmente, contudo, pouco se fala a respeito dos dois primeiros aspectos: muitos negam a ciência e os exames clínicos e, tomados de assalto pela ignorância e pela miopia ideológica, atrapalham o tratamento do ente querido. Sem laudo, sem atestado, sem apoio, o deprimido sofre em silêncio e vê minadas suas tentativas de recuperação. Tratamentos não são acessíveis: médicos, tempo, receitas, tudo tão caro, tão longe, tão sem agenda. E comprar um remédio de uso controlado revela-se um constrangimento em um país onde o preconceito contra o doente mental mostra-se tão acentuado. Sabemos que tem gente que machuca a gente, tem gente que não sabe amar. Porém, quem não sabe esquecer não será feliz.

          O país atravessa tempos difíceis e incertos na política, na economia, nas relações sociais. São tantas decepções, tantos percalços, tantos desatinos. Tudo isso nos entristece, ainda que momentaneamente. Ademais de tratamento médico adequado, o doente de depressão precisa de uma rede de apoio e de acolhimento. Dos familiares, dos amigos, dos colegas de escola e de trabalho. Ele não precisa de bullying, de assédio, de discriminação, de frases impactantes, de surra. Basta de arcaísmos já há tempos obsoletos: depressão não indica possessão maligna, não se confunde com frescura, não significa fraqueza de espírito. Depressão é doença, relaciona-se a uma disfunção no tratamento das emoções e dos hormônios, incapacita de modo parcial ou total o enfermo, com resultados avassaladores nas pessoas de sua convivência. Depressão mata. De uma vez o doente, e um pouco por dia seus parentes e amigos que sobrevivem à perda de quem sucumbiu à dor de existir e se cansou de arrastar a pedra e a si mesmo por aí. Quanto a mim, quando eu estiver triste, simplesmente me abrace. E me conte histórias que me possam alegrar. E você?     

Erro perene de português:

tristes trópicos outrora desnudos

     Um fato recente ajuda a entender a postura omissa do brasileiro em relação ao indígena: as declarações infelizes do Deputado Jair Bolsonaro no clube da Hebraica para externar seu desejo de eliminar as reservas brasileiras caso eleito presidente. Na internet, o discurso ecoou na conivência de parte da população quanto a práticas criminosas e atrozes, recebendo apoio entusiástico de quem ignora a mínima noção de lei, de cidadania, de respeito às culturas ancestrais e ameríndias pré-colombianas. Infelizmente, no histórico do contato do homem dito civilizado com o índio, há espaço para o trágico e para o bizarro: miçangas, romances e catequeses mesclam-se em um amálgama de morticínios e de rótulos bastantes para chocar literatos, mas incapazes de despertar o interesse da população adormecida e intolerante ao gentio: “índio é folgado”, “é indolente”, “dirige camionetes”, “trafica cocaína”, “estupra porque é inimputável”. Enfim, à ingerência dos órgãos públicos, soma-se a estultice geral, ingredientes do crime hediondo praticado contra tantas iracemas – ou américas? – desde o aportar do europeu nestas paragens tupiniquins, onde, outrora, todo dia era dia de índio, mas agora ele só tem o dia 19 de abril.

      Quando o português chegou por aqui, debaixo de chuva bruta, vestiu o índio. Que pena. Veste literalmente para esconder as vergonhas. Veste de religião. De costumes. De cultura e de desvirtudes. Inicia-se o processo de catequese nada ortodoxa dos milhões de ameríndios então existentes, quantia reduzida ao longo de séculos de escravismo, de exposição a doenças e de induções culturais. Expulsos de suas terras, privados de sua cultura, submetidos a maus tratos, infectados com viroses e dilemas cristãos. Que pena. Fosse uma manhã de sol...e o índio teria despido o português da decadente e falsa moral do europeu. Fosse uma manhã de sol e, talvez, o brasileiro fosse um povo mais feliz e menos atormentado por culpas e por dogmas pregados às multidões anestesiadas pela ignorância.

         Hoje, os ameríndios sobreviventes ainda padecem de antigas dores, de coloridas miçangas. Funasa, Funai e Desai, siglas tão funestas quanto ineptas, trocam farpas e incoerências, placebos inconsistentes para frear a mortandade de indígenas em razão da fome, da coqueluche, da diarreia, do alcoolismo. Tribos inteiras ameaçadas de extinção assistem à tomada de suas reservas para a extração predatória de madeira, de minério. Em alguns casos, mesmo caciques e líderes comunitários auxiliam nas práticas criminosas, numa triste demonstração de aprendizado questionável. Sim, há índios aculturados que aprenderam a roubar, a saquear, a extorquir. Índios que já não o são mais a despeito de sua aparência. Contudo, uma verdade inconteste: o hábito não faz o monge. Logo, é vital distinguir o indígena autêntico do já aculturado e merecedor de exílio. Que pena. Já não há manhãs de sol. Antes, e pelo contrário, uma noite sombria paira por aqui, e o índio bravo e forte, filho do norte, entoa se cântico de morte a uma plateia ensurdecida e sem vontade de reparar os danos de crimes continuados contra a população nativa e, em tese e em direito, detentora da posse do território. Triste a raça humana que inventa papeis para usurpar uma propriedade que é, de fato, de outros povos. Triste de quem legitima o abuso, o roubo, o desvio de caráter. Precisamos entoar o cântico de morte da moralidade e da ética.

      Fato inconteste e indubitável: os ataques ao índio não se mostram recentes. Registros históricos apontam a chegada do europeu como início da escravidão, da catequese, do estupro corriqueiro. Posteriormente, com a ditadura militar (pavor a seu retorno), o extermínio cresceu com o apoio logístico dos militares – para quem ainda duvida, leia o excelente Os fuzis e as flechas, de Rubens Valente. Causa espasmo e asco ler como as armas estiveram a serviço da mortandade de populações inteiras. Para quem ainda duvida, leia o magnífico Os índios e a Civilização, do antropólogo Darcy Ribeiro, um retrato do uso de armas biológicas para exterminar índios: como pode um ser humano civilizado, cristão e autointitulado detentor de direitos enviar roupas e utensílios contaminados para dizimar povos indígenas? Como ler sem chorar o relato do episódio de Caxias, fato obscuro de nossa história tão ignorado no programa de ensino? Qual teria sido a sensação de entregar um lençol infectado a um ser humano inocente com o intuito único de provocar sua morte? É isso a que chamam de civilizado em oposição a índio bárbaro?

      Na literatura, as páginas dedicadas ao indígena revelam ao leitor retratos esdrúxulos. Da figura idealizada e guarani do romance alencariano, desponta o ícone macunaímico, índio transmutado em branco, herói de nossa gente. Alheios ao paradoxo, jovens de diversas etnias encontram no suicídio uma solução extrema para dilemas existenciais – matar-se por enforcamento apenas antecipa o desfecho de quem se encontra excluído, violentado, famélico, com a corda da vilania que há tempos sufoca cânticos, cala rituais, imputa pecados. Em abril, contudo, no dia dezenove, declamam-se poemas, arriscam-se coreografias em pátios escolares. Que pena. Manhãs sombrias, de terríveis manitus, conferem a todos o estigma de I-Juca-Pirama. O índio deve morrer para que alguns boçais cruéis possam usurpar sua riqueza.

        Enfim, a Carta de Achamento do país descreve um povo orgulhoso de suas vergonhas saradinhas. Agora, uma nova epístola desnuda uma população capenga, mendiga, trôpega. Aculturada e destituída de respeito e de cidadania, a raça indígena permanece sob o jugo da manipulação ideológica, assiste a aulas em português e incorpora o culto a um deus alienígena. Sem terra, sem saúde, sem liberdade. Morre queimada em pontos de ônibus, chacinada no sertão, mutilada nas tantas igrejas que pululam nas reservas. Morre nos centros de saúde da Funasa, ocupa as páginas de jornais. E o apito soa, e o campeonato segue, e ninguém enxerga. Escurece nos trópicos outrora desnudos, agora mais tristes, privados de cocares, entupidos de vestimentas, de disfarces. Iracema é anagrama de América, uma terra triste, mesquinha e orgulhosa de furtar as nações indígenas. Que pena. Só fazemos perpetuar erros históricos.

A história da pós-verdade: entre fatos, versões e invenções

         Segundo Friedrich Nietzsche, a principal mentira em nossas vidas é a que contamos a nós mesmos, e essa frase genial ajuda-nos a entender o conceito de pós-verdade. Em 2016, os Dicionários Oxford elegeram o termo pós-verdade a palavra do ano, título muito adequado ao contexto global marcado pela disseminação assombrosa de farsas. Políticos cínicos, marqueteiros ávidos por vender serviços e pessoas, religiosos sedentos de almas e de dízimo, internautas raivosos, seres humanos iludidos pela fantasia diária de suas vidas pequenas. Todos apreciam a propagação da fraude, do engodo, da ilusão. Um efeito colateral: o ceticismo de grande parte da humanidade em relação a tudo que vê, lê e ouve. Se nada é tão verdadeiro, tudo se torna uma quase mentira. Do fato, surge a versão, e desta, a invenção. Acreditar em quem? Em quê?

         O uso patológico da mentira não se mostra recente. Platão já afirmava que ela mancha a alma, mas é permitida no interesse do Estado. Desde então, a história tem sido construída sobre uma base sólida de mentiras aceitas como verdades sem contestação de veracidade. Negros sem alma, mares repletos de serpentes, geocentrismo, judeus culpados pela crise na Alemanha: tudo mentira e, no entanto, para tantos, tudo verdade. Posteriormente, com o advento da internet, a situação já grave tornou-se crítica e mirabolante: internautas tomados pelo fanatismo e pela miopia ideológica apenas acentuam o alcance das inverdades, alienando o grande público de maneira cadenciada. A farsa onipresente e atemporal acompanha a evolução. A internet deu voz a idiotias, e eles não aprenderam a pensar, mas aprenderam a digitar. E a copiar e colar. Ainda mais sintomático: aprenderam a compartilhar as mentiras, as farsas, os crimes. Antigamente, quando a vida ia mais devagar, um boçal contava asneiras a meia dúzia de fantoches na roda do bar, da praça, da igreja. Agora, com as redes sociais, suas boçalidades navegam velozes e audazes em busca de novas vítimas da manipulação verborrágica.

       Na literatura e nas parábolas, a mentira surge como um desvio de caráter. Todos conhecemos a estória de Pinóquio. Conhecemos o ardil de Marcela, o de João Romão. Sabemos que os personagens mentem, e que são simulacros de pessoas reais: às vezes, olhamos para a tele do cinema, para as páginas literárias e percebemos ali uma figura conhecida. Uma epifania, uma descoberta trágica e assombrosa. Há um pouco de gente (da gente?) em cada poema. Daí, existe uma tentativa de educar pela leitura. Nas obras, o vilão mentiroso deveria contar com a rejeição do leitor, e a narrativa serviria de mola propulsora da virtude. Na realidade, não é assim: o leitor até entende o erro do personagem, mas se solidariza com ele por saber que, em situações análogas, faria igual. Ou pior. E o mundo ganha forma de literatura, repleto de empresários, de médicos, de alunos, de vendedores e de jornalistas aparentados de Leonardinho, de Pinóquio. E vocês conhecem bem a história: uma mentira contada mil vezes torna-se verdade.

     Vale ressaltar um aspecto positivo da habilidade de mentir: segundo estudos mais recentes de renomadas faculdades americanas, ter talento para mentir é sinal de inteligência. Os mentirosos aprendem cedo, já na infância, como manipular os fatos e as versões para o alcance de suas metas. Começam a carreira incriminando irmãos pela falta cometida. Inventam doenças para não ir à escola. Criam narrativas para obter vantagens. Os pequenos leonardinhos crescem e se transmutam em vendedores, políticos, pastores, professores, articulistas de jornal. Com suas mentiras (inclusive as mais absurdas), alcançam legiões de fãs, de seguidores, de vítimas. E mentem de modo tão cínico e exagerado que acreditam na própria mentira, disseminando a mitomania em suas vidas de fachada. Esses dias, alguém que mente gostar de mim foi traído pela própria ignorância: uma palavra, uma única palavra escolhida de modo intencional para ferir, e confirmei sua falta ética, seu desvio de conduta. Uma pessoa que, de certa forma, eu admirava. Não mais. Se fosse ingênuo, teria acreditado na mentira. Talvez, de certo modo, tivesse sido menos doloroso. Ainda assim, foi libertador confirmar suspeitas.

        Em suma, um fato real acontece em uma fração de tempo e no espaço delimitado pelas leis da física. Contudo, em segundos, o fato ganha versões contaminadas pelas lentes de quem narra, e a emoção, o partidarismo e a falta ética alteram o rumo das narrativas, alterando, desse modo, a verdade. Surge um novo fato, uma pós-verdade, em nada verdadeira, mas capaz de alienar, de cegar e de manipular o receptor da mensagem. Quando uma grande massa está cega e desprovida de senso crítico, afetada pela cognição preguiçosa de quem prefere o comodismo da interpretação pronta, fica mais fácil perpetuar uma grande mentira: olha a Lava Jato aí para confirmar nosso receio. Em tempo: se mentir aos outros em situações sociais pode ser sinal de inteligência e de educação (seu cabelo está lindo), mentir a si mesmo é sempre a pior mentira, fruto da ilusão. E mentir em proveito próprio, usufruindo de lucro e de vantagens, representa um grande perigo e um grande erro histórico. Aprendamos a lição antes de perpetuarmos o obscurantismo e os crimes contra a pátria e seu povo.