Índice

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1. Uma vela para todos nós: a caverna, o obscurantismo e a cegueira coletiva
2. Similaridades americanas: o homem repete a história
3. Hora e vez de Luis Inácio Lula da Silva
4. Em algum lugar além do arco-íris: Sim!
5. Cultura do ódio: tendência forte na moda e nas redes sociais
​6. Tem pedra no caminho
7. A lição de Werther – aprendamos antes que seja tarde
8. Erro perene de português: tristes trópicos outrora desnudos
9. A história da pós-verdade: entre fatos, versões e invenções
10. A inveja seca e mata – de olhar um pouco por dia
11. Uma fábula, quatro morais distintas. Escolha a sua.
12. Estado democrático de direito. Será?
13. A vida é uma pedreira
14. Ser e estar só
15. Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
16. De volta ao jogo – militarização no Rio de Janeiro
17. Não retorna o que nunca partiu
18. Nenhum homem é uma ilha
19. Imagem e semelhança
20. Grito extremista
21. Pátria desfalcada
22. Da natureza humana e tropical
23. Quem é mesmo reflexo de quem?
24. Padrão e Preconceito
25. A doença da ignorância e seu impacto na pátria cega: Se o remédio é amargo, mas cura, bebamos antes que seja tarde
26. Ano novo, novas posturas

 

 

 

 

 

 

Uma vela para todos nós: a caverna, o obscurantismo e a cegueira coletiva

        Um homem caminha apressado pelas ruas e começa a passar mal. Guarda-chuva, documentos, dinheiro, um alfinete de pérola na gravata, cachimbo e sapatos compõem sua imagem no dia chuvoso que seria seu último na vida. Dario cai, espuma a boca, atrai a atenção do público: prontamente, as pessoas se aproximam, especulam, iniciam um resgate e até arrastam seu corpo inerte e entregue às moscas. Levam o guarda-chuva. O alfinete. Sapatos. Papeis. Furtam e abandonam o cadáver. Um garoto negro aproxima-se e acende uma vela ao lado do cadáver. Gotas da chuva apagam a vela, devolvendo-nos o obscurantismo de nossa triste raça humana pensante, sentinte e cristã. Eis a síntese possível do conto “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan. Leiam. Por agora, segue uma tragédia póstuma de Natal em três atos. A peça segue firme em cartaz em solo pátrio, um dessucesso de público e de crítica.

       Primeiro ato. Na noite de natal, dois típicos jovens brasileiros em vestimentas brancas buscavam diversão, álcool e algo mais na noite infinda e obscura da cidade de São Paulo, onde não mais parece existir amor ao próximo. Perto de uma concentração de moradores de rua, travestis, gays e usuários de crack majoritariamente, iniciam uma discussão com uma travesti sintomaticamente chamada Brasil: uma metáfora da pátria desde sempre prostituída aos interesses externos e especulativos de elites sanguessugas. Brasil é esquálida, está bêbada e com a maquiagem borrada. Os jovens a agridem e passam a perseguir Raíssa, uma travesti atlética que corre feito Bolt pelos descaminhos do metrô: corre pela vida nossa Forrest. Luiz Carlos Ruas é vendedor ambulante no local. Conhece suas personagens, solidariza-se com a situação e tenta proteger as vidas já há tanto fragilizadas. Isso enfurece os rapazes brutamontes, homofóbicos, misóginos e truculentos, típicos machos latinos que aprenderam desde sempre a resolver seus assuntos no pau: se é desejo, estupro, se é conflito, pancada. O resto, todos sabemos: espancam Luiz Carlos até a morte mesmo quando seu corpo já estava desfalecido ao chão. Cai o pano. Apupos, aplausos, catarse.

       Segundo ato. Com a morte do vendedor, aproxima-se uma cambaleante figura alijada num passo bêbado. De muletas, abaixa-se ao lado do corpo e... rouba pertences da vítima. Afasta-se cambaleante com seu prêmio. Com a divulgação do fato na mídia, surgem os defensores dos covardes assassinos. Na canção de Caetano, um índio desceria de uma estrela colorida tão impávido feito Muhammad Ali. Viria tranquilo feito Bruce Lee. Luiz Carlos era conhecido como Índio. Apaixonadamente e solidário como Peri, tentou proteger as vítimas de agressões sórdidas. Não conseguiu, foi espancado e morto a chutes e socos pela dupla incontida. Onde está a polícia para quem precisa? Cadê a (in)segurança pública? E a solidariedade alheia: os presentes assistem à cena aturdidos e indiferentes. Agora, recebe injúrias nas redes sociais: diga-me com quem tu andas e te direis quem tu és. Vacilão: proteger travesti. Coitados dos rapazes: estavam protegendo sua masculinidade das travas. Iniciado o processo de desconstrução das vítimas, prontamente rebaixadas a escória: ladras, travas, ambulantes não pagantes de impostos, lixo humano catando migalhas entre os detritos. Quanta barbaridade, quanto ódio, quantos comentários reveladores da virulência social nefanda que se avizinha cada dia mais próxima. Pano cai. Catarse, aplausos, apupos.

       Terceiro ato. Imagino a dor dos familiares da vítima. Imagino a ausência de sua banca na boca do lixo paulistano. A falta de sua figura bonachona aos que com ele conviviam. Índio parecia querido e simpático. Assisto às imagens da agressão e fico imaginando onde estão a masculinidade e a macheza de dois jovens saudáveis que agridem uma travesti, perseguem outra e espancam um velho até a morte. Qual o sentido de criar um filho valentão, agressivo, opressor, sádico, cruel, assassino? Quando, enfim, a sociedade brasileira iniciará um processo de educação pautado no respeito, no amor, na tolerância? Quando a escola, a família e a igreja sairão das trevas e da cegueira coletiva, dando passos de humanidade em direção à saída da caverna sombria e pesarosa na qual estamos trancafiados pelo discurso de ódio? Quem irá nos redimir? Acender uma vela que jogue luz no obscurantismo no qual chafurdamos, tateando no escuro em busca de nossa humanidade perdida? Brasil mostra sua cara nas imagens: bêbada, borrada, maculada, agredida, puta. Um nome bem apropriado para sua pátria mãe desimportante. Triste.

 

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